Fé no mercado











Se o luxo é querermos estar bem, ou muito bem, e se nunca houve tanto bem-estar, promovido como garante de felicidade, porque razão tanta gente vive abaixo do limiar da pobreza? Por isso, exactamente, pela falta de honestidade. O luxo, como diz Rosseau, é uma espécie de derivação das artes. Uma espécie de prazer estético, que é desprezado e alimentado por muitos. O luxo é como uma moeda de troca, uma representação artística. A estética, como a vida, concebe-se, progride com o tempo e a experiência. Contudo, aos pobres é dito que o prazer estético, a beleza, está-lhes vedado. Nem precisam sair de casa. Têm de ser honestos. Sair de casa quais cordeiros para um trabalho onde terão que cumprir ordens, mesmo que sejam estúpidas, voltar para casa destruídos ao final do dia pelo salário diminuto, e pela impossibilidade de fazerem mais do que isso. Paga-se o preço por uma existência relativa. Usa-se o substantivo progresso para reflectir sobre o privilégio de trabalhar num mercado que parece voltar aos pressupostos da Revolução Industrial. Obrigar, evangelizar, fazer perceber: é deste modo que a desonestidade perpassa. É por essa razão que o luxo, na sua definição mais terrena e crua, nunca acabará. Há cada vez mais pobres no mundo, e o mercado do luxo é cada vez mais restrito, com uma audiência pequena cada vez maior. Se isto não é um paradoxo, não sei o que será.

 

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