O lado bom da vida

 














Em Portugal sempre se comeu bem. Há tempo para parar e apreciar. Ouvir o mar bater nas rochas enquanto se bebe uma morangoska, um gin tónico. Há tempo para apreciar a cor cintilante da água numa tarde de esplanada, num fim-de-semana de repouso, numa viagem para estar com familiares e amigos. A pressa europeia tem aqui valor zero. Rumar ao Norte para comer o bacalhau assado de Tábua, descer ao Sotavento algarvio para fazer o mesmo com a cataplana de peixe fresco. Embora seja cada vez mais difícil almoçar. A restauração tem feito um esforço enorme para que a clientela mantenha a fidelidade. Quanto mais tempo passa, mais baratos ficam os preços. No mínimo, mantêm-se, ou evoluem com muita contenção. Isso é um sinal do que é viver por cá. O tempo cronológico, é considerado um luxo de que se não deve abdicar. Entende-se que para vivermos todos bem, é preciso reservar horas preciosas que permitirão assumir esta espécie de transparência antropológica: gostamos de viver. É um luxo? Uma raridade? É sim senhor. Negar que precisamos de tempo, isso sim, é uma obsessão, que os obcecados com a produtividade julgam compreender. Esta moda durará menos, lá está, tempo, do que se julga, porque quem tem uma vida resumida ao teor da eficiência, tenderá a tornar-se doente. Pode ser que antes disso acontecer, alguém o redima. O cenário é apropriado. O Sol, a comida, a terra firme, a vontade de gastar-se para ajudar os outros a comer e viver melhor, com uma qualidade de vida acima da média, é ancestral. Mesmo com pouco, ou nada, para dar, o pouco que se oferece é muito mais importante do que a exageradamente considerada riqueza. Quando alguém decidia construir um palácio e isso demorava século e meio, dir-se-ia na época, talvez ainda hoje, que exagero. Perspectiva errada. Havia, e ainda há, tempo para demorar a fazer as coisas. Para comer, beber, estudar, trabalhar, ir de férias, voltar e parar para beber um café, ir ter com um amigo que mora longe e voltar horas depois. É uma bênção. Isso é uma confirmação consistente de saúde e bom senso.

 

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