‘O Tempo Impresso’


















A memória espontânea tem um valor elevado. Tarkovski refere-a quando se debruça sobre o tema do tempo. Não é o tempo cronológico, que passa, em vez disso, é o tempo como elemento que personifica uma identidade, um grau de pureza moral. Um tempo que é ‘um estado, a chama em que vive a salamandra da alma humana'. Cada homem. Um espaço temporal que condiciona a evolução da mise-en-céne, o significado em foco daquilo que vai acontecendo, a formalização dos nossos gestos no decorrer de escolhas, decisões, disposições, todas relacionadas com essa capitalização moral, daquilo que o tempo, como entidade, nos ofereceu e permite realizar. Aquilo que nos permitimos crescer, aprender e compreender. Embora o tempo cronológico passe, e isso tenha sobre cada pessoa um peso imenso, a iniludível capacidade de devolver à paisagem do quotidiano uma segurança, tranquilidade e certeza, ajuda. A força moral dos princípios que se escolhem como fio condutor da personalidade, pertencem ao domínio da força interior e da capacidade que cada um tem de se tornar verosímil. Que tal? A totalidade do regresso às origens, à denúncia pessoal, por momentos insólita, ao pressuposto que se espraia como uma tela onde é possível estabelecer os limites da vivência. A condição essencial de uma composição plástica, que torna decisivo o que é específico e real, único e verdadeiro. Os recuos e os avanços contribuem para esta complementaridade. E que melhor combinação do que aplacar esse entendimento com um copo de bom vinho.

 

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