Andar de bicla


















Ontem conheci o Rui. Tem 28 anos. Um zelo de viver enorme. Fala de uma maneira que impressionaria qualquer pessoa que se digne a conversar com ele durante uma hora, pelo menos, o tempo que ele gosta de estabelecer para aprender sobre assuntos relevantes. Há exactamente 15 anos, o Rui era mais ou menos assim, mas mais novo. Tinha 13 anos, portanto. Os miúdos de 13 anos gostam de andar de bicicleta (mas não só), e ele nunca foi excepção. Traquina, cheio de vontade de pedalar. Nada como uma bicicleta para nos levar de um sítio para o outro, sem excepção, quando somos miúdos. Digo isto assim, porque para mim a bicicleta sempre foi um veículo de férias, a que acedia entre campos, vales e muita poeira. As memórias das quedas, dos solavancos, dos trilhos ultrapassados, hoje inexistentes, superam qualquer desgosto tido depois de uma ferida aberta, de uma passagem de raspão por algum muro mais áspero que, como sabem todos aqueles que dominam a arte de andar de bicicleta, e que agora o fazem em pistas e circuitos preparados, pode fazer mossa a sério. O Rui sabe disso. Na altura, sabia disso. Quando alguém lhe passou por cima um automóvel, forçando-o a um coma de nove meses, e a uma vida limitada a uma cadeira de rodas, isso deixou de ser importante. Uma vida limitada agora por gestos simples, por ser impossível desafiar a gravidade com gestos mais complexos. Uma vida conseguida, é um facto, depois de tratamentos extremos no estrangeiro, embora sujeita a um espaço exíguo, que ele nem sempre consegue perceber porque tem por vezes uma percepção diferente da realidade, que percebe claramente nos dias bons, e que nos dias maus o obriga a arrastar as palavras, a fazer um esforço enorme para conseguir extrapolar uma ideia, a pegar em qualquer coisa com as mãos, a ficar calado e a mal se deslocar fora da bicla de que tanto gostava. A verdade é que faz parte da sua luta avançar. Tem uma ânsia de ficar melhor, e a esperança de que isso poderá acontecer. Deve ter dias difíceis, que quem cuida dele conhece bem. Estive uma hora exacta com ele, e reconheço que aquele foi um dos seus bons momentos. Em sessenta minutos ensinou-me que nada é garantido. Se nos dizem que falar é uma excepção, ou que falar e escrever é um privilégio e um dever, uma necessidade para que nos entendam, o esforço que o Rui faz é uma excepção maior. Um dever de zelo que ajuda a colocar a vida em perspectiva. Porque, até outras núpcias, aquela vida ficou suspensa numa estrada de alcatrão.

 

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