Efeito da (des)organização da paisagem


















No seu belíssimo, Finalidades sem fim (Quasi), António Cícero estuda a imaterialidade do real. Subtil, recorda o valor de uma coisa, o subjectivo, que está naquilo que ela ensina, numa sensibilidade que é o veículo da sua própria difusão. Logo que apreende e contempla esse lado cognitivo, que se observa com o intuito de absorver o que está à nossa volta, ela torna-se supérflua. Minimal, residual, junta-se a todas as outras obras, leituras, conceptualmente elaboradas, contribui para a ‘cultura’, mesmo se for uma péssima obra de arte, uma explicitação deficiente, por vezes pode reconhecer-se nela uma forma possível de admiração estética. O que se contrapõe à noção subjectiva de indivíduo, e de individualização do seu trabalho, como elemento de vanguarda, de urbanização da sua identidade. Cícero remete o assunto para a poesia e para o poeta, o que faz lembrar um poeta português que resume como poucos esta distopia do resíduo imaterial da subjectividade: Gastão Cruz. A dado momento: «Alguém parou à porta e avalia o vento:/o movimento/essencial do tempo, que da origem traz/o ar,/persegue desde/sempre a matéria que passa.» (Vento, de A Moeda do Tempo, Assírio e Alvim) É sem dúvida elementar que a arquitectura seja cada vez mais uma metáfora material e orgânica, em oposição ao limite físico do seu desenvolvimento tradicional.  O ‘vento’, que é apenas uma imagem, um resultado, uma consequência para além da invisibilidade dos seus percursos, acaba por representar esse volume estranhamente hábil do que constitui este crescimento (imaterial) da inteligência, num ambiente que deixou de ser fixo e imutável para, como Cícero aplica no seu receituário poético, negando-o por isso mesmo, por direccionar, ao conceber uma crítica e um juízo, para ser consciência da prática artística. Uma elaboração razoável entre aquilo que se considera finito, e histórico, e o que se ambiciona ver como vanguarda, apesar da sua prática experimental. Que desaparece e se transforma tão rapidamente como a vegetação que ondula na planície, pela força de um vento.

 

Quantcast