Falemos do Bitoque


















Recordo a maneira agradável como percorria a zona de Alvalade quando era um miúdo com pouco mais de cinco anos. Anos mais tarde, percebo a razão. Um dos poucos bairros de Lisboa, com uma organização espacial, ordenamento urbano, únicos. O Bairro de Alvalade teve por base de desenho o «Plano de Urbanização da Zona a Sul da Avenida Alferes Malheiro (actual Av. do Brasil), do arquitecto Faria da Costa, tendo sido baseado nos pressupostos daquilo que ficou conhecido com a ‘cidade-jardim’. Quarteirões definidos, escolas primárias por célula, dois liceus que serviram (e servem) o bairro inteiro. Os blocos de quarteirões, espaçados, num desenho por bloco e fogo, estabelecido para integrar vivências díspares, zonas públicas com carácter mais vivencial e urbano e outras, mais intimistas, zonas de grande privacidade articuladas com os jardins, as áreas de verde interior, na grande e na pequena escala. A Avenida da Igreja é todo um programa de sucesso espacial, arquitectónico, urbano e comercial, com os mercados próximos, e uma extensão definida de rua com lojas, e vida, que alegra o transeunte. E o Metro está logo ali, mas a uma distância segura, sem reprimir. E era ali que o meu pai me levava para comer o Bitoque, o prato que escolhi sem pestanejar do menu dos restaurantes até atingir quinze, dezasseis, anos. O que queres comer? Nem valia a pena perguntar: bitoque. Os puristas dirão que é uma refeição sem identidade, confusa, uma amálgama de ingredientes. Será mesmo? Discordo. É, provavelmente, o prato mais requisitado por crianças, pré-adolescentes, adolescentes, adultos e idosos. Às urtigas com o colestrol, e isso. Batata frita cortada à mão, estaladiça, em gomos irregulares muito diferentes dos gomos certinhos que caracteriza as batatas fritas congeladas, à molhada com um cilindro de arroz branco, um bife de vaca mal passado com o molho, um ovo estrelado a cavalo e, requinte mais recente, uma salada de tomate cortado em fatias grossas com cebola, bem temperada com azeite, vinagre balsâmico e sal grosso (ou flor de sal), à parte. Felicidade pura. Para matar saudades.

 

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