Graças a Deus temos as cerejas

















Chegou o tempo da cereja. A melhor, da Serra da Gardunha, é gorda e carnuda. Provavelmente, o ar frio da da montanha, com a Serra da Estrela a ladear o enquadramento, aperfeiçoa um fruto que sempre existiu em toda a Europa, envolvendo as árvores numa nuvem de sabedoria que depois faz as delícias de quem aprecia, sobretudo se servidas numa tigela com água gelada. Lá está, a reprodução do ambiente em que crescem só traz vantagens para quem lhes afia a o dente. Os ingleses fazem compota com as griotte, um tipo de cereja mais ácido do que aquele que conhecemos, muito doce. Os peruanos comem um tipo de cereja da selva que, em proporção de quatro, pode conter mais vitamina c do que uma laranja. Ou seja, aquele fruto vermelho é apreciado, dá gosto quando observado e ainda por cima tem qualidades terapêuticas, porque Gregos e troianos já as comiam com evidente apreciação. Há alguns séculos atrás, a cereja era, por exemplo, usada como bebida, depois de espremida a preceito. Devemos este hábito de nos alimentar com cerejas, em grande parte, aos romanos, que enxertaram árvores como nenhum outro povo. Foram, contudo, os povos mediterrânicos que valorizaram com maior empenho a cerejinha vermelha e rija, rica em potássio, excelente diurético e um regulador intestinal de excelência. Na Idade Média, os Mestres de Salerno estudaram o assunto com afinco, defendendo-a como fruto com propriedades medicinais suficientes para se lhe atribuir um estatuto depurativo. Digamos que, embora passassem os dias a estudar para ser doutores, a descobrir os segredos da medicina em geral, nada como a realização de mestrados dedicados a temas tão específicos e complexos como a alimentação com fruta doce da época, para obrigar à experimentação que faz confirmar a teoria dietética. O desenho e a configuração externa da cereja, torna impossível ficar-lhe indiferente. Além disso, é a primeira fruta a amadurecer na Primavera. Talvez seja essa a razão de já ter visto muitos quilos em caixa, à venda na beira da estrada. Nada como o bom gosto para purificar a alma de quem vai bulir. Como diziam os estudiosos medievais do alto da sua sabedoria, com uma precisão cirúrgica que certamente remetia para a realização de volumosos  tratados, a cereja ‘purifica os humores e faz correr sangue novo pelo corpo’. O rigor terapêutico sempre foi um must. Valha-nos isso.

 

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