Lacrar a vida


















O tempo que se perde a fazer o que se tem de ser feito é imenso. Levantar de manhã muito cedo. Ou levantar de noite muito cedo. Ir trabalhar. Ouvir o rádio. Escutar. O silêncio. Ouvir a música no IPod ou outro similar. Apanhar transportes públicos cujo preço está pela hora da morte. Ir de carro com o combustível idem. Ler os jornais. Ou não ler nenhum jornal e ler livros, para não ver sempre os mesmos a opinar e dizer-se especialistas. Substituir os livros por pedaços de informação dispersa lida em smartphones, IPad’s, e outros gadjets parecidos. Andar de carro de um lado para o outro quando se vai almoçar. Chegar a casa e ver filmes. Sair do trabalho todos os dias à mesma hora, voltar para casa à mesma hora, depois de ter saído à mesma hora. Alguns, que ficando mais tempo, vão orientando os assuntos. Picar o ponto. Ver outros picar o ponto pelo gozo, como pró-forma. Uns orientam, outros obedecem. Os que sobem na escala da hierarquia, os que expõem a hierarquia. Uma convergência mental que inferniza os orientados e que, aparentemente, sublima os orientadores. O facto assumido de que se quer evitar passar os olhos pelo ponto, porque isso confunde. Aniquila e reprime, embora apenas a alguns. Outros quinhentos. Uma portaria tratará do assunto, e se não o fizer, outras coisas farão as agulhas acertar-se. O quotidiano, pensa-se, é mesmo um acontecimento, e isso funciona. Estar vivo é o contrário de estar morto, dizia a outra, e isso é uma verdade absolutamente compreensível. Preferível é acordar com a mente aberta. Desconhecer um desígnio senão o de que tudo irá correr bem. Estar concentrado no que se poderá realizar, sem ter uma ideia absoluta sobre esses factos. Entender que uma ida à praia, ao spa, ao restaurante onde o chef cozinha o peixe no ponto, faz bem à alma que somos todos e cada um. O lugar de permanência, a arte clínica de preservar os valores, internos e externos. Pensar e executar. Nunca adiar. A arte concreta de abrir um livro, preparar uma refeição e repousar depois disso. Com a abençoada tranquilidade.

 

Quantcast