Líquido d' ouro














Diz-se que a verdade é como o azeite: vem sempre ao de cima. Acredito piamente nisso. Num país onde o azeite é, provavelmente, um dos produtos regionais com maior impacto na vida das pessoas, que ganha prémios (marca Gallo foi distinguida em dois concursos do International Taste & Quality Institute, em Bruxelas, e no 1º Concurso Internacional de Azeite Virgem extra da Ovibeja), isso é relevante. Azeite com flor de sal, servido num prato pequeno, branco, incólume, convida a molhar o pão fresco, o que também é incrivelmente bom em vezes sistemáticas, até todo o líquido ser absorvido. Nenhum estrangeiro poderá entender esta capitulação perante o valor do fruto da oliveira. A azeitona, mesmo só, vale o bastante, com orégãos, em alternativa a salsa, mais azeite e alho, isto é, temperada para o efeito de retribuir com sabedoria o tempo que se investiu no seu apuramento. O néctar, apesar de tudo, tem maior destaque, mas quem recusa umas azeitoninhas com pão? Segundo a Bíblia, o azeite sempre foi um alimento básico da comida israelita. Era usado como cosmético, combustível e até em aplicações terapêuticas. Era, por isso, uma mercadoria importante. Curava tudo à sua volta, fosse fome ou feridas. Talvez porque a oliveira é uma árvore que se adapta bem a condições difíceis. Cresce em solos rochosos e secos, vive durante séculos e se for cortada, consegue produzir até cincos novos troncos, ou rebentos. Um poder tão evidente tinha de resultar numa força curativa a considerar (vide Lucas 10:33,34), numa árvore que simboliza a produtividade, a beleza e a dignidade, sobre a qual é usada uma metáfora bíblica relacionada com a consistente bênção aos ‘filhos (e filhas) do homem’. (Salmo 128:3) Aqueles que têm escrúpulos e contribuem para a felicidade alheia, tornando-se ‘produtivos’, dando fruto real. Só que tal como uma mentira dita durante muito tempo, pode parecer uma verdade absoluta, os ramos improdutivos também podem parecer pujantes até ao ponto em que acabam por ter de ser podados. Resolve-se o problema removendo o que está podre. E assim sobram mais azeitonas para o bucho.

 

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