Lugar na paisagem


















A comida é cada vez mais tema na ordem do dia. Não é por acaso que uma ansiedade colectiva coloca programas sobre culinária nas suas grelhas televisivas. Há muitos anos que a importância do que, e como, nos alimentamos, é fundamental, mas nunca com esta urgência. Questões associadas à ecologia, ao desenvolvimento sustentável, ao processo de preservação, ou destruição, das paisagens, relevam do modo certo, assumidamente credível, de alimentar o mundo, pois somos todos filhos de Deus, por assim dizer. Apesar do progresso, milhões de pessoas morrem à fome, o que parece estúpido. Fartura, necessidade. Rica equação. O milho e a soja geneticamente alterados derivam dessa fórmula. O território africano, um dos continentes mais férteis do planeta, começa a ser cobiçado para ser celeiro do mundo. Todos querem que os seus estejam bem, e se for necessário cultivar na horta do vizinho, gastando os seus recursos, melhor. Indiferente. Embora as soluções nunca sejam milagrosas, um modelo de sistema de hortas públicas pode ser uma opção temporária para os dias que vivemos. Um modelo semelhante permitiu que os cubanos se autonomizassem. Há uns largos meses, o jornal i promoveu a apresentação de um conjunto de ideias relevantes. Uma das ideias que apresentei, baseada no trabalho desenvolvido para o livro «Lisboa 20150», foi a da criação de um sistema de hortas públicas de gestão privada, localizados ao longo de uma linha de transporte ligeiro de superfície (Tram-Train), que ligue todos os concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, do Norte ao Sul do Rio Tejo e, em lugares estratégicos, criar grandes interfaces, onde estariam colocados os novos mercados de proximidade, que escoariam aquela produção, fazendo com que a região da Grande Lisboa também se autonomizasse. Isto é arquitectura. Uma intervenção a longo prazo, de longo alcance, que inclui a paisagem e a integra no modus vivendi das pessoas, que amplia os recursos e os parametriza sem, no entanto, ditar ordens, ou regras, excessivas. Utopia? Provavelmente.

 

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