Num instante (re-publicação)
















©Massimo Berruti
Uma das minhas expressões plásticas favoritas é a fotografia. Quando se fixam elementos num frame único, o fio condutor que originou aquela captação, como que representa ao autor. As imagens de cidades, de pessoas, o detalhe ampliado num pormenor que passou despercebido a toda a gente, é revelado naquele instante. Agora que a tecnologia, como força indutora e transformadora, adiantou o tempo, tornado-o praticamente concorrente consigo mesmo, isto é, está a acontecer e já está a ser revisto, a fotografia ganhou uma importância superior. Porque ao contrariar a sucessão pela cristalização do momento, antecipa sem participar no movimento frenético da movida. A circunstância de quebrar o movimento contínuo, real e virtual, com uma imagem que tenta captar uma fracção de segunda, é perturbadora. Por vezes, a fonte da acção é tão poderosa, que a consistência da sua realidade, do seu contexto, fere a consciência, reprime sentimentos de prazer, e denuncia o jogo duplo dos poderes contra os oprimidos, da morte contra os inocentes, da tragédia perante a incapacidade de se superarem os estragos realizados. Popper, que odiava quando andava no liceu - julgo até ter hostilizado um professor por estar sempre a referi-lo –, no seu «Conjecturas e Refutações» (Almedina), diz que ‘somos dotados de uma linguagem com o objectivo de nos fazermos entender, de descrevermos factos, e por isso somos capazes de raciocinar’. Esse âmbito da argumentação de cada um é evidente. Mastigamos a informação que recebemos e tratamo-la individualmente com coisas que não estavam mencionadas na ‘informação original’. Popper chama-lhe ‘inferência’. A capacidade de tirar uma conclusão do que observamos, ouvimos, provamos, entendemos. O rectângulo 16x20 é tão ‘inferente’, como qualquer argumentação verbal, ou escrita, que seja validada. Tem a vantagem de expressar pela construção da imagem uma observância literal contaminada de subjectividade. As ideias, os parâmetros e regras pessoais, que o tempo e a educação constituíram. Em conclusão, a interpretação, ou leitura, que cada um faz de si próprio e da realidade.

 

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