O pão da vida


















A dado momento, Nuno Júdice, poeta, escreve sobre os ‘Intervalos de Viagem’. Numa metáfora, pergunta donde se sai para chegar à cidade grande, porque o tempo que passa na cidade pequena, parece-lhe diferente. Os jornais disponíveis são de véspera, os turistas deambulam sobre os espaços mais reduzidos, a cidade permanece constituída na direcção dos seus percursos definidos. Ao mesmo tempo, as esplanadas, os cafés, a paisagem que contrapõe o campo com aquela cidade, são insuficientes para o observador conceber ali uma vida prolongada, embora confesse que gosta muito de ficar. Se por um lado falta agitação, o frenesim, os prazeres que estruturam vontades e quotidianos, por outro, há em grau bastante aceitável, uma quietude que ajuda a fugir da metrópole, e a adiar o retorno ao lugar onde o trabalho é um dado adquirido da funcionalidade dos cidadãos. É tudo uma questão de tempo. As grandes áreas metropolitanas estão sem tempo, ou melhor, os hábitos, a urgência em assistir a uma necessidade, colmatam esse limite temporal estabelecido com uma enorme velocidade. Longe, onde as estruturas sociais mais antigas começaram, o tempo permanece como contemplação do vazio (da agitação), que é substituído pelo crescente relacionamento entre a mutação do silêncio e a capacidade de cultivar (literalmente), de esperar, de suportar que a pressa é um conceito inexistente. A espontaneidade que as grandes metrópoles exigem dos seus intervenientes, a ânsia de concretização, na aldeia tem um sinónimo igualmente divertido: a capacidade de chegar à mercearia e trazer para casa as dez bolinhas de pão da região, que foram feitas pelo Sr. Figueiredo, tal como as amassava há duas décadas. No grande centro, embora as esplanadas sejam melhores, o café disponível em quantidade, qualidade e variedade se espraie por mesas amplas e beiradas de rio extensíssimas, a identidade do Sr. Figueiredo dilui-se. Ele até pode rumar ali para deixar o pão que as pessoas irão comprar, mas quase ninguém lhe irá perguntar se a filha está melhor, ou se demorou muito tempo a fazê-lo. Poucos o conhecerão. Ele vai e volta. Pão é pão, o resto é conversa.

 

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