Parar para pensar {actualizado}


















O comportamento conveniente à mesa é importante para quem convive com regularidade. N’A Civilidade Pueril, de Erasmo, um dos capítulos que aborda com maior detalhe a arte de saber sentar-se para comer, reflecte sobre esse jogo de adopção de porte próprio, em oposição, e comparação, com os menos cuidadosos, que resultam em atitudes repreensíveis. Gosto especialmente desta exortação: «Não deites para baixo da mesa os ossos, ou outros restos, para não sujares o sobrado.» Assumpção nada rebuscada, se nos estivermos a referir aos restaurantes das áreas de serviço das auto-estradas – existem muito poucas excepções. Nesses casos, torna-se um pouco difícil evitar uma reacção designadamente peremptória, quando nos é servido um prato de comida a um preço exorbitante, com uma qualidade inqualificável. É o pão nosso de cada dia. Chegar a uma área de serviço de uma auto-estrada, consultar a carta dos preços, voltar para trás assustado. Ou, em caso de desespero, comprar algum alimento e ver surgir dentro de nós um agastamento tão profundo (deep) que exige cautela. Quando me desloco para realizar alguma viagem, levo merenda para evitar encontros imediatos, forçados, com esta restauração de nível inferior. De quando em vez, cedo, seja por cansaço, porque alguém que me acompanha o solicita, e vejo-me a chegar ao balcão onde está depositada a caixa registadora. Observo os bolos de mau aspecto, as sandes com alface morta e escura, os salgados a que escuso referir-me com detalhe e, curioso, consulto novamente a tabela de preços dos cafés, sumos e meias de leite e dos bens perecíveis à minha volta. Há duas semanas, pagámos €1,85 por uma lata de Sumol de ananás. Custa a crer que uma lata de sumo que custa cerca de €50 (ou menos) no supermercado, e um euro numa pastelaria decente, ali, tenha o seu preço inflacionado três vezes. Nestes momentos, gosto de evocar o autodomínio que tenho em mim, e pensar na razão que pode levar alguém a custear-se desta maneira, retirando do bolso das pessoas uma maquia claramente excessiva, para pagar um serviço mal prestado, com produtos de qualidade muito inferior à média. Nunca chego a uma conclusão adequada. Mas isto não é de agora, o que torna o caso ainda mais chocante. Há quase uma década, vínhamos um grupo de amigos do Algarve para o Porto, parando num desses locais para almoçar. Lembro-me de ter recusado comer. Chegado ao Porto, nutri-me com dois croissants mistos de uma vez, numa pastelaria demarcada da região da Maia. Soube-me pela vida, e nem sequer tive de deitar comida para baixo da mesa. Porque é que será?

 

Quantcast