Uma delícia nunca vem só























Quando o tema a tratar é doçaria tradicional, é impossível comer só um. Doce. Seja pastel de nata, ovos moles, pastel de amêndoa, travesseiro, ou Trouxas da Malveira, que é o que me traz por cá hoje. Porque ontem decidi aduzir umas quantas ao bucho, e entre a dívida soberana e a dúvida, diria até, existencial, que me atormentou com insistência durante para aí uns dez, cindo, vá, dois segundos, entre trazer duas enroladas num pedaço de papel, optando por ser frugal, pois a economia aconselha retenção, ou pedir a caixa de seis, optei por ignorar a primeira e aplacar a segunda. Meia dúzia, mais propriamente, de prazer puro, que descrevo para quem desconhece. Podem roer-se de inveja: creme de ovos, mole e doce, com umas lascas de amêndoas torradas, envolvido numa massa fina, com uma consistência óptima, e 10 centímetros de comprimento, açucarada, que reprime o mais saudável dietista de conseguir os seus intentos. Aliás, se dissessem a Emília Antunes Lopes, que fundou a fábrica, que Maria Celeste Esteves França da Costa continua a vender as trouxas com a forma de uma trouxa de roupa, com tal sucesso, a senhora ficaria certamente feliz. Porque não só se estava a fazer jus à profissão da sua tia-avó, que era lavadeira, mas porque o embrulho é, agora, muito mais bonito. As trouxas saem dos fornos muito mais depressa do que antigamente, são colocadas à vista sem que se consiga recuperar o bom senso, as caixas estão acumuladas umas em cima das outras, vazias, prontinhas para receberem o doce que os clientes levarão para casa. A insânia ataca, nunca menos de duas, duas dúzias, claro está, que o tamanho não cabe na cova de um dente para se realizar o exercício de levar a mão à boca uma única vez. É forçoso acudir à vontade e deglutir às três trouxas de uma vez só. Isso, a simpatia dos empregados, e o facto de ali se encontrarem os adeptos da volta saloia, acaba por fazer do lugar zona de peregrinação. Se forem simpáticos, envio-vos uma caixa de quando em vez. Ou então não, só para aborrecer. 

 

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