Uma estrada escondida


















Durante anos, andei à procura de Toledo. Descobri existirem duas Toledos, uma próximo de Coimbra, e outra do Vimeiro. Nunca percebi claramente qual era a vila pequena onde, em adolescente, nos deslocávamos com amigos para comer um bacalhau assado com batatas a murro que ainda hoje recordo. Quando pensava em Toledo, lembrava-me de uma estrada particular que era atravessada depois do pagamento de uma taxa simbólica. Passava-se a curta fronteira pagando aquele valor, para depois podermos apreciar a vista que durava menos de dois quilómetros, talvez um pouco mais. Uma paisagem luxuriante, com um rio a serpentear os montes que ali estavam constituídos, o verde intenso da vegetação, o som da água a correr. O meu pai parava o carro a meio, e podíamos perceber melhor do que se tratava durante aquele pequeno percurso. No final, depois de atravessada a segunda cancela que tinha um aspecto um pouco rudimentar, que lembrava coisas antigas, fechando o ciclo, chegávamos à Toledo do bacalhau. Percorríamos mais uns metros de estrada e parávamos num restaurante que ainda está aberto, com uma garrafeira do outro lado da estrada, e onde ainda se pode comer aquele bacalhau assado. O terraço improvisado da época, deu lugar a um espaço interior muito bem articulado, maior, e o restaurante continua a ser um espaço de excelência para quem quer provar como se trata do fiel amigo com esmero. As iguarias adiantam serviço ao estômago, que as recebe com idêntica apreciação que os olhos. O que me surpreendeu na última vez que ali passei, imediatamente a seguir à adolescência, foi o valor que atribui ao lugar. Se por um lado tinha uma dimensão que idealizei, a correspondência concretizou-se com a sensação de que afinal o sítio era mais pequeno do que pensava, embora isso de nenhum modo altere o seu valor. Há relações que nunca mudam. Depois de chover, a terra deita aquele cheiro molhado, que acalma o espírito. Depois de chegar a Toledo, come-se bacalhau assado, embebido em azeite e alho, com batatas assadas a murro. E a vida abranda para uma pujante serenidade.

 

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