Acarinhemos o cérebro

















Levar uma vida focalizada dá trabalho. Ou se esquece o aprendido em décadas de existência, ou se entende que as camadas de informação que nos suportam dão jeito e contribuem para melhorar a atenção prestada. Ao quê? Assumindo que aquilo a que prestamos atenção determina parte do que somos, vale a pena permitir a alguns neurónios a nobre tarefa de desenvolver a capacidade de ser intelectualmente robustos. Quer dizer, nem todos querem escrever tratados sobre assuntos tão profundos como a organização das colmeias e o paradigma da abelha rainha no contexto sócio-cultural da produção de mel, ou a arqueologia da toupeira e de seus percursos, relativamente à influência dos seus movimentos na fertilização do solo. Nada disso. A maior parte de nós aprecia as coisas comezinhas da vida, como correr, andar de bicicleta, nadar, comer, beber, nutrindo algum empenho pelo descanso, por dormir, de preferência em habitats em condições de sossego, com paisagens marcantes, sons agradáveis e afins. A nossa rede neural, contudo, pode sair reforçada se tivermos um forte sistema de recursos que nos permita variar ao que damos atenção em determinado momento. Winifred Gallagher, uma jornalista norte-americana, escreveu sobre o assunto, depois de lhe ter sido descoberto um cancro. Em RAPT – Attention and the Focused Life, ela estende a análise ao seu comportamento perante a doença, partindo do pressuposto de que, mesmo trabalhando para ficar melhor, isto é, dedicando tempo à recuperação e aos tratamentos, nunca iria deixar-se levar pelo medo, depressão, pela ruptura que a doença promove a nível interno, relativamente ao sentido da injustiça, da tristeza em ter de encontrar uma solução para um problema que ninguém previa ser possível suceder. Embora todas as pessoas sejam diferentes umas das outras, a vida ‘focalizada’, a capacidade de desenvolver uma personalidade centrada na habilidade exuberante de fazer os neurónios trabalharem no seu próprio equilíbrio, é uma vantagem. Aquilo a que prestamos atenção pode, de facto, alterar a plasticidade do nosso cérebro e moldar o comportamento, o que somos. Isso pode ser muito bom, ou péssimo. Depende do que andamos a fazer. Pode poupar-nos muitos desgostos ou, pelo contrário, ser suficiente para por as pedras da calçada a chorar. O que, convenhamos, seria desastroso para os profissionais da calceta.

 

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