Cavar daqui para fora


















Cada tiro cada melro, cada cavadela cada minhoca. O dizer é aplicado a maior parte das vezes para simbolizar a frustração persistente de um desgraçado (a) qualquer, que nutre pelo sucesso pessoal, financeiro, literário, uma relação de distanciamento. Cavar, portanto, uma actividade nobre, por sinal, sem estar directamente relacionada com o insucesso, tem muito que ver com a capacidade de adiantar o corpo à ditadura da terra, que é dura de roer, e de movimentar a enxada durante horas a fio, para cima e para baixo, a fim de mexer no solo para o final da semeada. O meu avô cavava todos os dias. O meu estômago agradeceu durante décadas esse esforço de mãos, que ainda hoje mantêm aquela força. Cavar, que é um verbo bem instrutivo, remete imediatamente para o universo das alfaces, dos tomates, da batata doces, das ervas aromáticas, da rega regular, da horta doméstica que, independentemente do tamanho, conduz o seu proprietário, curioso ou não, a reconhecer as potencialidades que um pedaço terreno pode trazer para a sua qualidade de vida. Retirar uma alface frisada, de um tamanho aceitável, lavá-la, e usá-la numa salada, ensina a perceber as lógicas por detrás do crescimento orgânico de um produto que é muitas vezes vendido a preços proibitivos. A abóbora é um dos meus frutos favoritos. A forma da abóbora, seja menina ou graúda, é delicada, tem uma cor excepcional e os doces que se podem realizar ajudam a compreender o conceito de, planta agora, colhe os frutos mais tarde. ‘Quem semeia parcimoniosamente, também ceifa parcimoniosamente.’ (2 Coríntios 9:6) Doce de abóbora com amêndoas, pinhões e nozes, doce de gila, mais claro, dentro de um croissant simples, acabado de sair do forno, requeijão com doce de abóbora, uma sobremesa de imbatível qualidade. Creme de abóbora com um fio de natas. Ou seja, cavar faz bem à saúde, mesmo se as bolhas nas mãos indicarem o contrário. Para a próxima, use luvas. É como se não tivesse cavado um palmo de terra.  

 

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