Dar umas tesouradas na imaginação


















Uma das vantagens das ‘vilas’ pequenas dentro da grande cidade é toda a gente conhecer-se bem. É o ser local e estar próximo dos outros. Quando é preciso comprar uns legumes frescos, duas opções imperam: ir ao mercado, e aproveitar para comprar pão na bancada do Nuno, que tem sempre uns pastéis de natas, Trouxas da Malveira e tortas com creme de ovo, passar e levar flores da Dona Luísa, sair e parar na loja mais chique da zona, falar com a Sabina, comprar-lhe, se possível, uns queijos da Serra e umas caixas de chás, ir ao talho e aproveitar para saber o preço dos arrendamentos no prédio, sair com aquele queijo fresco que também se pode comer no único restaurante, carne da vazia e de alcatara (medalhões), de vacas verdadeiras, descer até ao supermercado e cumprimentar o gerente da loja, sem esquecer quem avia os medicamentos e trata dos papéis no banco. Aqui, felizmente, ainda não se fazem compras online. Ninguém tem pressa. Inclusive eu. Voltando ao restaurante, é como se voltasse a comer em casa da minha avó. Destaco a tarte de claras com recheio de doce de ovos, e amêndoa cortada grosseiramente por cima. O bitoque, claro está. As iscas, com aquele molho que o proprietário também aprecia, dão-me sempre vontade de voltar. Percursos que se calcorreiam. Hoje, por exemplo, descobri o barbeiro Miguel. Trinta e poucos anos. Morreu o anterior dono da loja, parece que de doença cardíaca, ele, que já cá tinha estado a trabalhar, resolveu remodelar o espaço e abrir uma barbearia própria. Manteve as cadeiras antigas com aquele cromado brilhante que chama a atenção, adaptou uns lavatórios que se encaixam perfeitamente no basculamento das mesmas, e o resto é simples. A tabela de preços é uma folha branca A5 emoldurada, presa a uma parede. O discurso dele é feliz, cativa o cliente, reflecte sobre a relação do barbeiro com a pessoa a quem corta o cabelo, os quilómetros que muitas pessoas fazem por fidelidade às mãos que conhecem. Os homens mais que as mulheres. Nunca pensei. Parece que aquela sabedoria adquirida ao longo de anos a fio, nunca se pode desperdiçar. O Miguel estava a cortar o cabelo consciente disso. Mantendo o corte, dando um jeito ali, outro acolá, num instante o tratamento capilar ficou resolvido. Os movimentos da tesoura, a técnica, tudo ali exposto e resumido num cartão rectangular. Volte sempre, diz ele, se preferir, o mais depressa que conseguir.  

 

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