Do pepino e de seus comparsas


















Gosto de mercados. Visitei muitas vezes o da Ribeira, em Lisboa, a caminho da faculdade. Vendem-se livros, fruta, legumes, pepinos. Cheguei a encomendar flores vindas expressamente de um país que agora não recordo, apesar do ar céptico da florista, que preferia claramente o produto nacional. É nos mercados que se consegue medir o pulso das vilas e das cidades. Nos mercados aprende-se, há uma forma de comunicação aberta. Os clientes não são bem clientes, são mais fregueses. Os fregueses assíduos distinguem-se dos clientes esporádicos. Há quem ali vá com confiança adquirida em anos de incursões bem sucedidas. Os novatos na matéria, cedo se empolgam. Os distraídos, ignoram o fenómeno e vão aos hipers. Um dos meus mercados preferidos, é o das Caldas da Rainha, ao ar livrre, mais conhecido por Praça da Fruta. Conheço-o desde miúdo, antes até da Mafalda Pinto Leite reconhecer as potencialidades do dito cujo no seu programa de TV. As idas ali acabavam sempre com sacos repletos de fruta, leguminosas, coentros, salsa, tomate maduro. Havia quem ali vendesse produtos crescidos em terrenos férteis de família. Laranjas, as couves, portuguesa e outras, as batatas, as cenouras, o feijão verde, os limões, tinham uma qualidade bem boa. No meio do todo essa qualidade esbatia-se, porque o que importava, e importa, nos mercados, é a capacidade de resiliência dos envolvidos, venham donde vierem, vendam o que venderem, de estarem presentes todos os dias. De manterem vivo um modo de vida que lhes permite produzir aquilo que é elementar, com um carinho e um gosto cada vez mais raros. Neste último fim-de-semana, aprendi, por exemplo, que as cerejas de Resende, próximo da Serra da Estrela, do lado de Viseu, são tão boas como as da Serra da Gardunha. Faccioso, por gostar mais da horizontalidade sempre presente no lado serrano da Covilhã, comprei um saco, porque me foi dito que eram de um produtor que andava há anos a tentar certificá-las, sem no entanto conseguir fazê-lo. Foi uma boa ideia. Eram muito doces e carnudas. Quando estávamos à procura do pão, e o dissemos alto, uma senhora simpática envolveu-se na conversa e disse: «oh menina, o pão (de Rio Maior) vende-se lá em cima.» Logo a seguir aos chouriços, aos queijos e à doçaria conventual. E não é que era verdade?

 

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