Doutores honoris causa

















Um mercado fecha e sucede nada. Um mercado fecha para ser transformado num espaço para que a franja de 1% com dinheiro possa ir fazer compras à vontade, ninguém se indigna. O mercado do Bom Sucesso, no Porto, fechou. Atenção: é um edifício classificado pelo IGESPAR, com uma arquitectura exemplar, e o mesmo organismo deu o seu aval à operação (ah, ah, ah, ah). O edifício vai ser alterado, e remodelado, para que sejam construídos dois outros de gosto duvidoso: um hotel, outro de escritórios, com comércio de luxo e 44 bancas de produtos gourmet na base, para a malta dos offshores ocupar o tempo a tomar pequenos-almoços produtivos, fazer negócios e, nos entretantos, ir comprar o caviar Beluga. De facto, há um património imobiliário a saque. Uma das dúvidas que me persiste do novo projecto, é a capacidade de colocar tanta gente a comprar fino. Isso surpreende, porque o consumo per capita tem diminuído, há cada vez mais pobres e cada vez mais pessoas a passar fome. Falemos então da intervenção: uma maquinação bem estruturada em Photoshop que falha o essencial, a revogação da utilidade do espaço naquilo para que foi concebido, que assim deixa de funcionar com os seus principais actores, substituídos por outros que desprezam quem realmente trabalha para ganhar a vida. Há um zelo, e um interesse, sempre direccionados. Uma falta de vergonha que é sinalizada para estes dias, últimos, por sinal, que aflige. Os vendedores que ali investiram, e gastaram do seu dinheiro, vão agora ser escorraçados, deitados fora, e despejados. Os comerciantes de pacotilha que vendam noutra freguesia. Do ponto de vista arquitectónico, a reabilitação é idiota e desproporcionada. Idealizada por gente de igual calibre, inevitavelmente incoerente, capaz das maiores atrocidades. A voragem é isto. Fingir que o problema é dos outros, que se vão embora, quando a esquizofrenia faz pendant com a ganância, e atropela toda e qualquer espécie de princípio.


 

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