A ficção dissolvida


Harold Pinter, numa rara incursão pela poesia, afiança: «Não há mais palavras a dizer/ Só ficámos com as bombas/ Que estouram dentro das nossas cabeças/ Só ficaram as bombas/ Que nos chupam o último sangue/ Só ficámos com as bombas/ Que dão lustro ao crânio dos mortos.» É um poema de uma dureza extrema, escrito a propósito do fenómeno bélico. Como diz Pessoa, na palavra escrita tem que estar tudo explicado, porque é a única maneira de quem lê perceber a brutalidade da guerra, da injustiça. As sociedades têm-se destituído de energias, através destes postulados inqualificáveis. O ‘Resto’ que fica é uma amálgama de ódios, desprezo, infâmia e repulsa, que Céline, Polanski e Borges reproduziram na tradução trágica do real que os atormentava. O tombo que precipita a falência é ignorado como tal, julgando-se que um objectivo primordial prevalece perante a maquinação do erro. Julga-se que esse erro é um dado adquirido do real para optimizar um vigor desmedido que, em teoria, aproxima as mentes, criando uma estética social e cultural relevante. A raiz do problema, contudo, persiste. Enquanto a ficção salva. Escreve-se, inventa-se, lê-se e soletram-se palavras que restauram um espaço que se dissolve na sua própria invenção, um espaço aparente construído para conduzir esta representação numa trajectória de obra que legitime o seu entrosamento com o real para, no final, a ficção representar-se nesse âmbito de dissolução que prevalece como simbólico. Parece um ritual, de onde é forçoso extrair um ensinamento pórfiro, aparentemente tão sólido como uma pedra feldspática. Mas é aqui que, de um modo trágico e envolvente, a ficção se dissolve e a realidade tem início. Na vulgaridade e na classificação metódica da perda, que acaba por fazer do quebrantamento (vivido e observado) um processo de existência material.  («As Bombas», excerto de, «Guerra», Quasi edições; «Theatrum-Mortis, Poiéticas, arquitectónicas», Carlos M. Couto S. C., Colecção Plural, Ensaio, INCM)

 

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