Houston, we have a problem



















O cérebro prega muitas partidas. Estamos num centro comercial, parece-nos estarmos a ver alguém conhecido, dirigimo-nos a ele (a), profundo engano. Para quem vê mal ao longe, pior ainda. Há probabilidades muito sérias de se confundir. Diz Shankar Vedantam («O Cérebro Oculto», Guerra & Paz), que o cérebro faz-nos pensar que determinada coisa está mais próxima de ser do que, na realidade, acontece. Acrescenta uma névoa à sua capacidade de decisão. Porque os humanos têm esta tendência de se deixarem levar pela racionalidade, em muitos casos ignorando aquilo que inconscientemente os está a levar para outro lado. Opinião, sentimento, opção. Isto, embora pareça, não é completamente estúpido. Por isso, cometem-se erros crassos em assuntos relevantes. O autor resume bem a dicotomia: «se encararmos a mente consciente como o piloto de um avião do qual o cérebro oculto é o piloto automático, o piloto pode sempre sobrepor-se ao piloto automático, excepto quando não está a prestar atenção ao que se passa.» Foi por essa razão que o avião do voo 447, que ligava a cidade do Rio de Janeiro a Paris, caiu. Um conjunto de circunstâncias, aparentemente inconscientes, imperceptíveis, e o pensamento, recorrente, de que aquela espécie de modelo de avião seria imune ao desastre, aliados ao que se pode chamar de atitudes conscientes irregulares, que permitiram a um aparelho daqueles ‘aterrar’ na água com o ‘nariz levantado, impedindo que os intervenientes no processo de recuperação da estabilidade da aeronave, fossem efectivamente bem sucedidos. Isso diz pouco das suas associações e atitudes inconscientes localizadas naquele instante, mas diz muito da sua matrix (o ‘cérebro oculto’), do desenho das suas mentes. Embora a razão seja em inúmeros assuntos o ponto de equilíbrio entre tomar uma boa e uma má decisão, o instinto, algo inexplicável, pode por a intuição acima de qualquer ‘telescópio moral’. Em situações de emergência, ou em momentos específicos em que é fundamental abrir os olhos para a vida, isso acaba por ser também essencial para evitar uma opção que inclua entrar numa espiral descendente.

 

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