Nos interstícios da Terra da Promessa




















Estava escrito que uma cidade cujo nome significa, no hebraico original, «Posse (Alicerce) da Paz Dupla», seria tão escusa à sua nomeação. Saul Bellow, ele próprio herdeiro da tradição judaica (por filiação parental), tenta explicar a razão de três religiões monoteístas se arvorarem detentoras do direito de considerarem aquela a sua ‘cidade sagrada’. Embora escrito e publicado em 1975, este relato de viagem mantém uma actualidade referencial. Bellow conferencia em privado com amigos, escritores, políticos, como Rabin, almoça e janta ao mesmo tempo que acumula para si uma experiência solene, que o recompõe. Deambula por uma cidade que alimenta a imaginação literária. Pára na rua, senta-se numa esplanada e observa a ‘cidade santa’, enquanto discute política e religião com estranhos e transeuntes. As associações de Israel com a política externa norte-americana, o vento que sopra do deserto do Sinai, as camadas de informação histórica que vai explorando, num diálogo com o passado, presente e futuro, compõem um inquestionável documento histórico que é tudo menos uma bravata. Pelo contrário, há uma assimilação. Desde logo, por ser um lugar a que ninguém consegue ficar indiferente, sem opinião, neutral. Quem vai tem de voltar. Nunca esquece. Porque ou se é a favor ou se é contra. Pelo conflito entre árabes e judeus. Porque a diáspora é um facto consumado.

Título: Jerusalém, Ida e Volta – Um Relato Pessoal
Autor: Saul Bellow
Editora: Tinta da China
Tradução: Raquel Mouta
Classificação: 5 estrelas

Prós: Clareza; melancolia que perpassa da linguagem, dos trejeitos, das descrições; edição e grafismo; tradução
Contras: Nenhum

 

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