Para lá de Bagdad

















A viagem expressa um gosto que todos apreciamos. Ir embora, como que abandonar por momentos as rotinas diárias, recupera no mais distraído uma certa joie de vivre. O sentido desse abandono, embora temporário, tem uma adequada persistência porque implanta-se e cresce. É diferente da angústia de quem fica sozinho, ou de alguém que se perde num lugar qualquer. A perda é, neste caso, uma necessidade. Como? Perder um horário estabelecido. A noção das horas. Das obrigações laborais. Quando se viaja quer conhecer-se, perder numa rua para encontrar um sítio onde se possa comer um bom pequeno-almoço. Entender o lugar onde se está pela experimentação da gastronomia, da paisagem, do silêncio que fica quando sentados num terraço com vista para o que escolhemos como temporário, relativo, mas fundamental. A escolha tem nestas circunstâncias uma relevância importante. Está-se ali porque se deseja. Não porque alguém tenha dito ser forçoso sair para a rua a uma determinada hora, para realizar uma tarefa que deverá ter um determinado resultado. Vê-se. Pensa-se. Dorme-se. Esquece-se. Se é um lugar novo, nunca observado, a história é importante para perceber a razão de se estar ali. Tal como os percursos. Quem viaja tem esta disponibilidade para aprender o que é diferente, e embora isso seja muito razoável, os magotes de pessoas ansiosos por fixar momentos ‘kodak’, para a posteridade, acabam por ensombrar aquilo que a viagem deveria ser: um período resolvido para que se nos revelem coisas. Nada de concreto, apenas a possibilidade de, abandonando por momentos a gigantesca massa de humanos submetidos aos limites dos seus postos, apercebermo-nos, finalmente, da qualidade visual que um coral submergido pode ter; o gosto doce e amargo de uma morangoska com hortelã, enquadrada com o movimento das ondas tão próximo, enquanto sentados a uma mesa que está dentro de água. Por falar nisso, a beber água fria de um coco, e a esperar que a novidade daquele dia seja o prato de amêijoas que irá ser servido dentro de momentos, com uns quartos de limão. São estes pequenos gestos que contribuem para que nos conheçamos. Voltando depois à base, para continuar a viajar o resto do ano, do sofá para a cozinha, da sala para a casa de banho. De casa para o trabalho. Mais ricos e, sobretudo, mais descansados.

 

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