Respirar como deve ser

















Folheio uma Ler antiga, e apercebo-me de algumas palavras sublinhadas. Palavras cujo significado me era imperceptível, numa condição que exigia consulta directa ao dicionário. Isto denuncia duas coisas. Primeira, que agora a consulta aos dicionários e gramáticas seja realizada pelo prazer de aprender novas palavras, e segunda, que embora isso aconteça, é muito raro encontrar palavras de significado desconhecido. Isto não é de nenhum modo uma afirmação de sabedoria. O que me parece é que tem existido alguma diminuição na qualidade como a linguagem é apresentada, com as honrosas excepções da praxe, ou não fossem os adeptos da literatura seus leais representantes. Inacção, unívoco, empíreos, augúrio, metempsicose, volitivos, cotejam-nas, cacofonias, apólogo, paroxismo, entre outras que poderia mencionar. Digamos que o texto em causa, da autoria de Luísa Costa Gomes, é uma espécie de ensaio sobre a alma, o que desde logo parece indicar terreno apropriado para dar largas à imaginação, e escavar um pouco pelo dicionário adentro. Para além disso, Luísa Costa Gomes, no que à Literatura diz respeito, coloca a fasquia muito em cima, e é essa a razão de sempre que dá à estampa alguma coisa, quem a lê, aprende. É uma característica relacionada com a capacidade de fazer prevalecer uma certa ideia com um rigor de linguagem e uma riqueza de léxico, parâmetros essenciais para se poder escrever, aliados a um detalhe primordial, o desenvolvimento de boas ideias. O que lamento, em parte, é ser difícil encontrar textos com esta dimensão, este peso, com uma riqueza material suficientemente densa para forçar o leitor a pensar no assunto, sobretudo, a sublinhar uma ou outra palavra com um significado que lhe escapa, não porque seja um asno, simplesmente porque o autor realizou o esforço de fazer o jogo das palavras novas que embelezam a totalidade do texto. Temos esta vantagem, um idioma rico, muito pouco estanque, embora imune às idiossincrasias de uma certa vontade de adaptação ao mercado lusófono. Mas, se esquecermos por um bocadinho essa treta do mercado, que é unilateral e só serve o sentido de quem lhe absorve os recursos materiais e os coloca delicadamente no bolso, a paisagem que fica, também estabelecida, é a enigmática e comprovada respiração da língua. Que permanece num registo frutífero. E, nem de propósito, há uma nova revista de literatura chamada «DuasMargens». Seguir a ligação (link), vai ajudar a entender esse esforço de dedicação e apreço.

 

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