Se estala o verniz















A pesca sempre foi para mim uma ciência distante. Posso afirmar com certidão que nunca pesquei. Aquela tentativa frustrada de me colocarem isco numa cana, numa barragem qualquer, para poder lançar a linha sobre a água, não pode ser considerada pescar. Obviamente, isso nem de perto nem de longe se relaciona com o gosto de comer bom peixe. Isso sim, já é para mim. Os linguados, as douradas, o rodovalho, a solha, algum peixe-espada, e o meu preferido, o pregado, são animais que gosto de ter à mesa, bem tratados, com a simplicidade que exigem, sobretudo se estiver bom tempo e der para acender a grelha. O facto de nunca ter realizado a actividade, importa-me pouco. Aflige-me mais a fome no mundo, o problema persistente dos canídeos fechados em casa, que fazem um barulho infernal e afins. Por isso, quando um senhor que eu conheço descreveu detalhadamente a maneira jeitosa como pesca polvos, fiquei fascinado. Os polvos são estúpidos, diz ele, e glutões. Gostam de sardinha e caranguejos, o que não me parece um sinal de completa estupidez, mas parece que fazem tudo pela comida, até arriscar a vida. Digamos, são um bocado ingénuos. Quando lhes cheira a almoço, ou jantar, esticam literalmente o pernil. Vão desta para melhor. O que também é uma metáfora muito adequada. Melhor no nosso prato, do que na água a lançar aqueles jactos inoportunos, típicos de cefalópodes. Então o dito bicho era grande, pareceu ao pescador. E, como todos os bichos daquela natureza, resolveu papar a comida que lhe estava a ser oferecida. Umas vezes sardinha. Outras, caranguejos. Como era grande, dava-se ao luxo de se manter muito bem escondido naquelas reentrâncias rochosas, protegido, em modo de segurança. O pescador de serviço insistia. O polvo mantinha a sua posição. Alimenta-me que eu gosto. Isto durou um mês. Ao final de um mês a ir lá, alimentando a criatura a cada incursão, o senhor decidiu um dia que já estava na altura de trazer o polvo para casa. Sem medos, vestiu a parte de baixo de um fato de surf, porque assim pode pescar mais à vontade, sem ter frio, e lá foi, rumando ao seu destino. O polvo desconhecia, mas o seu futuro pescador estava ciente de que apostando numa estratégia mais manhosa, o poria no prato. Dito e feito. Lançou-lhe o isco com uma sardinha, que ele agarrou desalmadamente com um dos tentáculos, e logo a seguir, mostrou-lhe um caranguejo. Colocou-o à vista, e foi arrastando o isco, trazendo o dito para águas menos profundas. É escusado dizer que o polvo, ingénuo, correu atrás da presa. E acabou sendo presa, e prato principal de uma bela refeição. Um quilo e setecentas, que deve ter dado para fazer um arroz delicioso. Entretanto, quando o colocou na rede, o pescador percebeu que a sardinha ainda estava fixa nas ventosas, intacta. O animal foi traído pela ganância. E nem o facto de conseguir ver a cores lhe valeu. Aprendamos, portanto, que há coisas na vida com um verniz tão polido, como pareceu ao polvo que o caranguejo luzia. O resto é retórica.

 

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