A singularidade do lado B

















Um acto singular não basta para criar em nós um ser durável. Escreveu Husserl. É verdade. Um conjunto de actos singulares pode, em alguns casos, criar em cada um, a consciência de que conseguiu atingir um objectivo. Isso é ser. E é disso que se trata, de objectivos concluídos, quando queremos transmitir uma mensagem, fazer um statment, deixar bem clara uma ideia. Ser. Sartre, a dado momento d’A Imaginação, cita Binet: «o pensamento é um acto inconsciente do espírito que, para se tornar consciente, necessita de imagens e de palavras.» É essa a razão de ser tão importante alimentar ‘o espírito’ com aquilo que vale a pena. No meio da desinformação generalizada, a tendência para ficar obtuso é grande. Impõe-se escolher, deslizar pela FNAC, Bertrand e outras livrarias, visitar museus, degustar refeições, alimentar a capacidade crítica. A ética e a responsabilidade social dos media, por exemplo, é essencial para fazer submergir das páginas dos jornais uma evidência, notícias relevantes, abordagens que conferem ao leitor uma espécie de legado, e essa doutrina acaba por traçar a distinção entre aquilo que é relevante e aquilo que deve ser desprezado. Apesar da ânsia pelo choque, que é cada vez mais uma obsessão, a verdade é que a voragem, a necessidade absoluta de ter notícias frescas, assuntos em primeira mão, acaba por constituir uma metodologia standard que nem sempre orienta os parceiros, os intervenientes, os objectos e alvos da ansiedade colectiva, para o melhor resultado. Muitas delas, orienta para um resultado possível. É preciso parar para pensar. Contender contra aquilo que pode consistir numa permeabilização da velocidade, ou se em velocidade, a alcançar objectivos e ultrapassá-los com tal empenho, a pelo menos colocar um filtro para fazer os neurónios arrefecerem. E se o Husserl não escreveu sobre isto, deveria ter escrito. Tinha-nos feito um favor.

 

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