Tábua para toda a obra
























Vale a pena ter uma tábua de corte na cozinha em contraplacado marítimo. Para quem desconhece, é o tipo de madeira usado para construir embarcações de recreio, entre outros objectos que precisam de ter uma grande resistência ao ambiente, com as suas quilhas enviesadas em ângulo invertido para atacar as águas salgadas dos oceanos. A tábua cá de casa é numa madeira diferente. Isso nota-se quando lhe cai água quente em cima. Nesses casos, encurva de um modo abstruso, tornando impraticável qualquer tentativa de corte adequado. Quando está mais frio, volta à sua forma original. É no mínimo divertido ter uma tábua de corte com alterações de humor. As oscilações correspondem ao sucesso tido quando é altura de cortar ervas aromáticas, como os coentros e a salsa, e a tarefa parece impossível porque aquele pedaço de madeira abana ao ritmo do facalhão a dar de si. Uma ambição, contudo, impõe-se-me: para além de ansiar uma daquelas colecções de tachos, panelas e frigideiras com fundo negro espesso, e uma colecção de facas de feitios e tamanhos díspares, um dia destes vou ter com um carpinteiro meu amigo e peço-lhe uma bancada inteira em contraplacado marítimo, com um acabamento que implique o fechamento dos poros da madeira e a aplicação de um verniz mate para preservar o seu estado original, poupando-a assim às marcas e aos golpes desferidos pelas lâminas afiadíssimas. Prontinha para as intempéries da execução gastronómica. Isso sim, seria uma manifestação de bom gosto e empreendedorismo. Seria uma loucura, quase tão impressionante como pegar num veleiro de 12 metros e percorrer o Mediterrâneo de lés a lés. Só falta adquiri-lo. Um dia, tenho de pedir conselhos ao meu amigo Luís Gomes (Artes e Letras, Lisboa) sobre o assunto.

 

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