Um homem qualquer



















Jacome Ratton foi um oprimido. Passou 52 anos em Portugal, desde 1762, naturalizou-se luso, assistiu ao Terramoto de 1775, em Lisboa, na Rua dos Remolares, a que sobreviveu, apesar dos estragos causados numa das casas que ali tinha. Até que, em 1810, depois da terceira Invasão Francesa, a sua vida mudou para sempre. Integrado na sociedade, proprietário de muitas terras, casas, era um homem de sucesso no ramo comercial – arrendou perpetuamente a Quinta da Barroca D’Alva, em Alcochete, em 1767, para a plantação de amoreiras e criação de bichos-da-seda. Nada de novo. Jacome Bellon, tio irmão da sua mãe, iniciou-o na difícil arte dos negócios, inculcando-lhe um conjunto de valores que se repercutiram no seu quotidiano. Ratton apenas continuou aquilo que os seus pais, em específico, já tinham começado, sendo empreendedor e capaz de se implantar com alguma circunstância numa sociedade que era tudo menos plural. O problema aconteceu porque o homem tinha uma influência brutal, despertando invejas, e comentários maldosos a torto e a direito. A dada altura, os colegas da Junta Real do Comércio, decidem que ele já não é bem-vindo como rico industrial, e toca de acusá-lo de traição ‘à Pátria’. Claro está, um estrangeiro anteriormente nomeado para conduzir e planear, em conjunto com portugueses, negociações ao nível do comércio regional, agora acusado de criminoso. Teve de se fazer à vida. Não lhe valeu ter permitido a ocupação da quinta em Alcochete, durante as Invasões Francesas. Foi imediatamente vincado por, alegadamente, pactuar com os ingleses, dando guarida aos soldados daquela nação. Daí até ao mandado de prisão foi um tirinho. O percurso, resumido: prisão em São Julião da Barra (Oeiras), expulsão para a Ilha Terceira, exílio em Inglaterra e, por fim, retorno a Paris, sua terra natal. Escusado será dizer que, apesar de ter tentado limpar a reputação com a publicação de uma biografia, enviando também provas documentais ao Rei D. João VI, isso lhe valeu de pouco. O que só vem demonstrar a linha ténue, e bem definida, que persiste, entre possuir e deixar-se disso. Jacome Ratton continuou rico, mas a possibilidade de viver a vida em Portugal, essa esfumou-se. A escrita acabou por redimi-lo um pouco. Era esse o propósito: ‘ser ainda útil a Portugal’, passar o legado aos filhos, para que se soubesse. Ficou-se pela segunda via. A estirpe ‘real’ da sociedade nada quis com ele. Como tudo, isso acabou por saber-se.

 

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