Marvin, o robô maníaco-depressivo de «Hitchhiker’s Guide to the Galaxy», é provavelmente uma das melhores personagens de cinema já criadas. Para o caso importa, foi a primeiríssima personagem a ser, digamos, desenhada pelo realizador Garth Jennings – baseada no livro de Douglas Adams. «Life, don’t talk to me about life», diz como se todos os desprezassem, porque para aquela máquina a vida, de facto, era uma tristeza. Daquela de que se pode despertar apenas com uma bofetada violenta (é preciso ver o filme para perceber esta metáfora), e mesmo assim, com dificuldade. Para Marvin, nenhum problema poderia ser maior do que as suas inefáveis dificuldades em adaptar-se a um sistema que o ‘oprimia’. Por isso, dizia num excerto de um diálogo: «o que é suposto pensar-se quando somos um robô maníano-depressivo? Não, não vale a pena preocupares-te a responder, sou 50 vezes mais inteligente do que tu e eu próprio desconheço a resposta. Aliás, fico com uma enxaqueca só de tentar descer ao teu nível para pensar como tu.» Peremptório. Marvin acaba por ser o elo de ligação entre a alta e a baixa inteligência que atravessa o filme. Garth Jennings, chamou-lhe uma ‘personagem icónica’. Não é nenhum exagero. O filme funciona como um guia para uma abordagem criativa da película, cada vez mais rara nas salas de cinema. O ‘guia’ para a Galáxia, um livro admirável, que faz lembrar alguns dos actuais tablets, é a chave conceptual para ‘salvar o Universo (não apenas o mundo) dos Vogon’s feiosos. Aquela sociedade mal-humorada que um terrestre, um estrangeiro, um robô, a namorada do primeiro, e um rei inter-galáctico distraído acabam por conhecer à força, porque se confrontam com ela, é igualmente uma boa ilustração para a maquinação do erro num modo consentido, do esforço exagerado que culmina na burocracia à flor da epiderme, de onde ninguém pode ser ‘salvo’, liberto, sobretudo à força da má poesia dos Vogon que, ouvida em doses excessivas, podia levar qualquer pessoa à morte, até um extraterrestre. Pode parecer um exagero, mas esta deveria ser filmografia recomendada a todos os estudantes do Direito. (ah, e o pormenor da toalha, uma maravilha)

