O Pão nosso de cada dia
















Para além da exortação, ou pedido, na Oração-modelo, o pão que se nos é dado à boca demonstra a destreza do padeiro - que tem inculcada nos dedos a sabedoria oferecida por Deus. Os privilegiados, que puderam na infância assistir à manufactura da bela massa, podem falar do assunto com outros preparos. Cientes, contudo, de que há uma realidade que a maioria dos indigentes infelizmente ignora: o cheiro do pão fresco, acabado de cozer. Coisa cada vez mais rara de encontrar, pois embora supermercados sirvam aos clientes oferta variada de pães de regiões distintas, é por vezes penoso pegar num desses pães e escolhê-lo para levar para casa. Velhos, secos, moles, alguns até inevitavelmente ideais para confeccionar açordas. Para além de servirem aquele pão que compram em massa congelada, cozido em fornos eléctricos imundos, que dura cerca de cinco horas e meia em estado apresentável. É isso que se espera de quem quer comprar um pedaço de vida? Se uma volta às mercearias contraria esta ideia, aflige que seja concebível a possibilidade de o pão ser vendido num estado lastimável. Não surpreende. Ocasiões existem em que os legumes, as alfaces, os agriões, os tomates, entre outros, são vendidos apesar de parecer ter-lhes passado o tractor da lavoura por cima. Poderia ser uma animação sugerida pela origem biológica, só que a realidade é muito mais cruel. São regularmente disponibilizados aos clientes produtos sem qualidade, muitos deles em estado que mandaria a obrigatoriedade cívica depositar no caixote do lixo mais próximo. Basta que não seja dia de frescos, na terminologia própria, e o cliente presta-se ao engano. Como? A estratégia simples é deixar tudo no frio e servir, ainda frio, ao cliente. No dia a seguir, seja fruta, seja legume ou verdura, está feito num oito. E, assim, deixou-se de falar de pão. Voltando ao assunto, convinha haver menos preocupação com o sal no pão, do que com a sua qualidade. O pão de plástico que se vende por aí deveria ser erradicado. Qualquer papo-seco coloca uma massa informe em sentido. Posso queixar-me pouco, por ter tanta oferta de tanto tipo de pão à disposição, que até impressiona. Com mais ou menos água, o pão salva a dignidade de uma pessoa, estreita laços quando convidamos alguém a nossa casa, e estendemos um cesto recheado. E nem é preciso suar muito. Basta cortá-lo à medida e apresentá-lo como um símbolo de refeições que acabam por se tornar inesquecíveis.

 

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