O travo da aldeia














Ouço que se anda a plantar hortas em casa. Em termos puramente materiais, há um retorno à economia de pequena escala da produção doméstica. Por todo o Portugal? A Carta gastronómica das Aldeias do Xisto, esclarece: «durante milhares de anos que se prolongaram até à Revolução Industrial, a agricultura constituía a principal fonte de subsistência. Imperava o campesinato e, mesmo aqueles que não estavam directamente dependentes da agricultura, dela careciam, mais que não fosse para se alimentarem, sem podermos esquecer as matérias-primas para a indústria.» Nas Beiras, onde o pão, as papas, as sopas, os legumes, o peixe fresco do rio e das ribeiras, o leite, o queijo, os ovos, a broa, a batata, o feijão, concebem uma riqueza de produção, e de trato dos recursos da terra, da região, fundamentais. Para a população, que se adapta à dieta alimentar de acordo com os seus recursos, mas tendo constantemente em apreço que a adopção de certos receituários, embora por vezes dependa do recheio da carteira, como no caso desta região, ‘zona mais irregular e polifórmica de todo o território português’, também resulta da necessidade aliada ao gesto que completa a paisagem, porque a constitui valia económica, e a enche. Para quem vai de visita, e se não consegue mais desligar dali, ou de quem ali nasceu, prolongando no tempo os laços da comunidade. Portento de conhecimento, validação de um mundo aparentemente áspero, com o xisto no preâmbulo, por onde escorrem as águas limpas nas serras da Estrela e Gardunha, mais ao Norte, e as Gralheira, Caramulo e Buçaco, mais ao Sul. Isto com o ‘fosso’ médio do rio Zêzere por perto, a unir três Beiras, Superior, Central, Baixa, e a destapar a ‘arca’ de uma terra onde não há um palmo por cultivar, diz-se, e é bem verdade. É comum encontrar nas aldeias alguns dos resíduos desta ‘luta’ do interior para manter-se graciosamente empoleirado, a visionar o seu relevo. Isso vê-se nos hábitos à mesa, na alimentação provocada, e espontânea. E que grande lição, esse interior está a prestar ao litoral, onde se andam a plantar hortas em altura dentro de apartamentos. Onde a massificação do edificado se plasmou, e de onde já só se podem recuperar recursos a muito custo.

 

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