Depois de fazer zapping durante alguns minutos, reparo na entrevista realizada a um CEO da praça portuguesa. Alguém que considera os tectos de dívida uma necessidade. A um dado momento, profere sobre a narrativa que qualquer empresa, produto, estratégia, deve possuir. Dito assim, de chofre, parece estranho, que uma empresa, por exemplo, tenha uma estratégia comercial delimitada, ou imposta, por uma narrativa. Esta associação entre a designação e um topónimo que se usa na literatura, embora pareça estranha, pode fazer sentido? Um livro, por exemplo, deverá ter sempre um fio condutor que conduz um leitor através de um conjunto de situações, a história, ou a na sua ausência, de circunstâncias e descrições suficientemente poderosas para sugerir a quem lê uma intromissão num mundo construído, mesmo se delineando o real. A modernidade veio misturar os conceitos. Os dispositivos poderão ser semelhantes ao que foram no passado, embora utilizados de modos diferentes. Agora, os nomes dados a certas dialécticas, relacionam-se entre si, e a forma estrita de observar um assunto como o marketing, deixou de fazer sentido. Tudo é estratégia, tudo é vendável e pode ser adquirido. Num mundo cada vez mais provisório, a essência de uma narrativa, de um discurso de composição aberta, introduz a subjectividade no sistema, através dos mecanismos da escrita. É verdade que as estórias que se contam devem ser interessantes, harmoniosas, pois isso decorre daquilo que caracteriza o foco narrativo. Por isso, vêem-se cada vez mais produtos, empresas e marcas ansiosas por fazerem as pessoas, potenciais clientes, perceber que a sua sim, tem um valor que deve ser interpretado. O valor acrescentado. O risco, e isso é igualmente regido, é a saturação. A ausência de mistério. E nesse sentido, há cada vez menos expectativas e cada vez mais acontecimentos, ou situações, carentes do valor invisível que a superfície das coisas oblitera.

