Abrir os olhos, para um pomar de amendoeiras


















Digamos que uma das memórias mais recorrentes que tenho é da feitura de uma tarte de amêndoa. Relembro o odor intenso da amêndoa a ser torrada na ‘cloche’, a massa a ser preparada, as tarteiras de metal já gasto, porque nunca se fazia apenas uma mas várias tartes em simultâneo, que acabavam quase sempre no porta-bagagens de alguém. Chamemos-lhe bondade, capacidade de fazer o outro feliz, que é uma coisa rara, nos dias de hoje, em que a aparência, o que está à vista, tem uma importância desmedida sobre o conteúdo. Vai-se a ver o núcleo, a base, é só buracos negros. O que no caso da tarte só sucedia quando acabava. Lembro-me, por exemplo, de cortar fatias generosas e de deixar o metal, da base da tarteira, à vista, de correr manhãs inteiras, e algumas tardes, ansioso por degustar a dita que tardava em ficar pronta. A feitura da tarte é uma boa metáfora para a capacidade de entrever a desgraça – o facto de a não poder comer num determinado momento –, e a felicidade suprema, o ter diversos e variados círculos de prazer disponíveis para assumir como refeição e para oferecer. Talvez seja surpreendente perceber que estes princípios básicos da oferta e da procura, do querer dar e do aceitar, são essenciais quando reflectimos sobre a identidade, e a capacidade de observar além daquilo que é visível. Por exemplo, a tarte, muito apelativa, confirmava as expectativas no limite, isto é, quando era enfiada no bujo. Por outro lado, nem sempre é possível considerar a arte suprema da gastronomia como um alerta para um modus vivendi. Nada disto tem a ver com inteligência, mas com hábitos, com as memórias, os gostos que nos são imputados. Há gostos para tudo. Só não há gosto para o desgosto. Para a assumpção definitiva do que é risível, e robusto no disparate. Por esse motivo, a tarte de amêndoa é como um bálsamo. Muitos desconhecem que concentra nutrientes presentes em proteínas, frutas e hortaliças, lacticínios, e cereais. Parece uma ‘noz’, mas é fruto de uma árvore, a amendoeira, cheia de flores brancas, com delicados centros rosa, que enchem o ar com uma fragrância forte a cada Primavera. Então, o que parece é, ou não é? Dê-se-lhe o sentido que se quiser, o despertar dos sentidos é como uma tarte de amêndoa, que o pode suscitar, ou mesmo a árvore donde vem o seu fruto: só alguns entendem a origem, o conteúdo, a essência.

 

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