Duas cidades























Retorno a Serralves e fico estarrecido perante a beleza da Casa antiga, e da relação do novo edifício de Siza Vieira com a paisagem. Passados tantos anos da construção, agora que alguma crítica ousa a reflexão sobre a arquitectura denominada 'branca', e Manuel Vicente ‘chicoteia’ a classe, a geração posterior e a seguinte, com o ónus das ‘caixas’, da falta de invenção (em entrevista ao Ípsilon da semana passada), continuo a apreciar aquela implantação distinta, os arranjos exteriores, realizados numa perspectiva de respeito pela vegetação, de enlevo comovente pela sua natureza, ali plantada há décadas, de que João Gomes da Silva (arquitecto que fez o Estudo da Paisagem ali) também se soube apropriar. O que vem demonstrar a intemporalidade do exercício da boa arquitectura que, como prática, reforça os laços das pessoas com os lugares. Falando de carácter, não no sentido pessoal, humano, abro um «Mil Folhas» antigo, com um artigo sobre uma exposição de Francesco Vezzoli, que mistura vídeo e assenta a sua análise do quotidiano, até do glamour que se entrevê nas divas do cinema e da música. Isto faz pensar. A exposição, claro, e o facto de Serralves constituir um marco importante na rota da arte contemporânea internacional. O que faz do Porto uma cidade de excepção no panorama nacional. Diga-se, em boa verdade, que em Lisboa a oferta é muito diversificada, e igualmente redutora. O ritmo a que Serralves, agora acompanhado pela Casa da Música, coloca no ‘mercado’ da arte um conjunto de reflexões de importância fundamental, é de assinalar. O que parece constituir uma metáfora relacionada com a transformação das cidades. O Porto, com as suas ligações low-cost ao resto da Europa, com uma prática arquitectónica consolidada, que reflecte sobre o acto de construir com uma acutilância, subtileza e preparo de monta. Lisboa, uma cidade aparentemente mais sofisticada, onde as low-cost são uma miragem – se quiserem voem TAP e paguem, ou tenham a vossa família a trabalhar lá –, uma cidade mais caótica, onde parece que tudo ocorre com outra dimensão de ‘aqui sim’, que se não concretiza, onde a arte sucede numa dispersão que a coloca no anomimato, onde um museu central como o Centro Cultural de Belém, é amorfo no que diz respeito às rotas internacionais, com espaços, luz e os maiores museus a fazerem-se ver, é certo, mas ‘mais velha’, enrugada e necessitada de um face-lift.   

 

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