«Ali de pé, /O frio da manhã/ Surpreendeu-me!/ Orvalho macio: em pilhas fundas/ Folhas caídas de caqui.» Parece que o Verão chegou, com uma nebulosidade que se adensou, agora dispersa. As manhãs calmas com o silêncio do rumores, absorvidos pelos raios de Sol que agora se espalham, e assim esperam milhares de pessoas. O poema japonês citado enuncia, por isso, uma imagem que faz recordar aqueles dias sentados dentro das barracas na praia, enquanto lá fora a canícula molha as toalhas. O mar, silencioso, quieto, demorando a chegar, a manifestar-se revolvendo as pedras na areia, muito devagar. Uma bola que percorre um espaço, desprezada pelo gesto desiludido de uma criança. Em contraponto, agora começa a época alta propriamente dita. A agitação natural à volta do bar da praia para comprar gelados, água, os mais afoitos bebendo de copos exóticos, os pufs cheios, os jogos de voleibol improvisados e as raquetas pululando nas mãos dos jogadores do ténis balnear, com bolas que saltitam com tal velocidade e peso a ponto de estabelecer uma relação um pouco aborrecida com corpos de pessoas que se impõem entre essas jogatanas ocasionais para passar o tempo. As cartas, jogo de outros tempos, alguma tecnologia sobressai, de gente que não consegue viver sem esse avanço constante no seu quotidiano. Os grãos de areia que invadem os plásticos dos pad’s, de quem decidiu ler levando para tal uma catrefada de livros dentro de um leitor digital – melhor do que levar todos os dias apenas A Bola (que é um excelente jornal, estudado nas melhores universidades), sem mais nada, sobretudo numa época em que as personalidades do desporto também foram a banhos. Cheira a protector solar e bronzeador de diferentes tonalidades. Odores dispersos, e o que mais parece relevante, será conseguir encontrar um local onde estes marcos banais da civilização estejam um pouco menos presentes. Um lugar onde ainda subsista a mudez como um segredo bem guardado.

