Ui, a literatura
















Folheio casualmente «Viagem por um Século de Literatura Portuguesa», de Nuno Júdice (pela Relógio D’Água), que termina muito subtilmente. Com uma menção fugaz a Pedro Paixão e Miguel Esteves Cardoso. E que ignora candidamente Rui Zink, por exemplo. É um livro estreito, e que acaba por conter pouco espaço para quem tem demonstrado engenho naquilo que escreve. Diga-se que respeito e admiro muito Nuno Júdice. Adiante. Vejamos um excerto de «Dádiva Divina», de Zink: «Um homem que, com a minha idade, se põe a viajar, fá-lo porquê? Porque acredita na viagem? Porque não tem mais que fazer? Por amor ao dinheiro? Até mesmo esta última razão, a melhor, a mais bela, mais linda, mais justa e adequada de todas, é insuficiente. Mais valia desistir, que é que toda a gente faz, que é o que toda a gente, se bom senso tivesse, faria. Desistir. Desistir é bom, desistir é óptimo, desistir é formidável, desistir é excelente, desistir é a única verdadeira vocação humana. E desde há anos que eu sou, modéstia à parte, campeão para-olímpico dessa mui nobre qualidade. Sam Espinosa, aqui tem o meu cartão: Homem Amputado, especialista em desistências, derrotado profissional ao seu dispor. Serviço ao domicílio. Discrição assegurada.» É, digamos assim que ninguém nos ouve, uma prosa com finco, que se assemelha a muito pouco do que se escreve por cá, pelo contrário até, é contraponto com a pasmaceira e a tentativa de alguns em fazerem pela vida, sempre apoiados nas muletas da obsessão e das ideias premiadas, reflectindo o autor, que embora agradeça pela atenção que lhe dão, concebe o rigor, a capacidade e o direito de dizer aquilo que muito bem lhe assiste, pois possui a qualidade que distingue os escritores das tentativas. A propósito, a erudição aliada ao humor bem direccionado, naquele perímetro que aflige os mais sensíveis, os habituais das colunas de revistas de jornais, da crítica, os aspirantes e os ansiosos mas incapazes, é capaz de fazer certos corpos torcerem-se por dentro. Compreende-se, aceita-se, tolera-se, e nem me parece excessivo perceber que a sua existência incomode outras existências. Os livros de Rui Zink merecem ser lidos. Seja feita a devida vénia.

 

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