Dna, Vidas (caderno III de O Independente), A Preguiça, Mil
Folhas, 6ª, Dependente, Nós (jornal i), Grande Reportagem. São nomes de
projectos na imprensa, citados um pouco ao acaso. Bons projectos, que acabaram.
Revistas, suplementos, cadernos de cultura, recheados de qualidades,
insuficientes para poderem continuar como tal. Terminaram por motivos
semelhantes: uma suposta falta de rendibilidade. O que também caracteriza
qualquer um deles é serem produtos delicados, onde a imprensa se confunde com
arte, literatura, ensaio, artes plásticas, música, tudo o que relaciona formas
de expressão artística.
O DN Jovem, suplemento extinto do Diário de Notícias,
insere-se, à sua maneira (com muito maior simplicidade e parcos meios), neste
leque de publicações, em paralelo com o anterior DNJ, o Juvenil, do Diário de
Lisboa, editado por pessoas tão distintas como Alice Vieira e Manuel Dias – que
transitou para o novo DNJ. Isto importa pois Mariano Gago, antigo Ministro da
Ciência e da Tecnologia, a seu tempo, também escreveu ali. O seu aparecimento surge de
uma vontade de manutenção dum espaço de publicação na imprensa escrita para
albergar novos valores. Pessoas que, ou por serem muito novas, desconhecidas do
meio, ou simplesmente por gosto, gostavam de escrever e de tentar ver os seus
textos redigidos no papel, escrutinados o suficiente para também poderem ser
valorizados – a publicação seria o prémio maior. Sonhavam-se carreiras
literárias, no jornalismo, na escrita, por assim dizer. Aos poucos, esse papel
decisor, que mandava qualificar as intervenções, é alterado e, a 28 de Maio de
1996, quando o suplemento passou do suporte de papel impresso para o meio
digital. Isso sucedeu enquanto Mariano Gago exercia funções. A dado momento, numa
intervenção pública, o próprio sugeriu que se analisassem os pressupostos por
detrás daquela mudança, a par dum estudo sobre a importância dos media nos seus
diferentes formatos.
Hoje, às 18h30m, na livraria Bulhosa de Entrecampos, essa
resposta será devolvida ao grande público, com o lançamento do livro, «DN
Jovem, entre o papel e a Net» (Esfera do Caos), de Helena de Sousa Freitas, colaboradora
do suplemento e actual jornalista na agência Lusa. Muito apropriadamente, Mariano
Gago assina o prefácio. O título do livro é resgatado à capa da última edição
de ‘papel’, que antecedeu a mudança para a plataforma digital e, como se poderá
comprovar, é um tratado sobre a evidência formativa de um suplemento de
cultura, nos antípodas da criação literária em Portugal, por uma geração que
não podia criar blogs, e que inclui nomes conhecidos das Letras, das artes, do
jornalismo, do humor: Pedro Mexia, José Luís Peixoto, José Vegar, José Riço Direitinho,
Ricardo Araújo Pereira, José Eduardo Agualusa, entre outros.
O suplemento sugeria temas semanais. A publicação era uma
espécie de confirmação, de lastro que se ia ganhando para continuar a escrever,
a tentar publicar. Os prémios, livros, eram uma benesse. Foi assim durante
muito tempo. Helena Freitas compreendeu esse pressuposto fortíssimo, e tomou-o
como ponto de partida para um ensaio, ao jeito das teses publicadas nos países
anglo-saxónicos (resulta da elaboração de uma tese de mestrado), em que se apresenta uma teoria, se demonstra a tese e se
confirma a sua relevância, neste caso, para a consolidação de um património
cultural que releva da intervenção continuada de alguns intervenientes, que
passaram a participar activamente na vida pública, comprovando o pressuposto. A
autora rege-se por princípios de análise consistentes, que tentam compreender o
contexto, enquadrando-o em matéria-prima complementar de outros autores, numa
pesquisa sobre as características sociais da época, os hábitos de leitura, a
importância da internet, a velocidade e dificuldades de acesso à rede nos
primeiros anos da sua existência em Portugal, com depoimentos de escritores,
jornalistas, artistas plásticos e fotógrafos intervenientes, com recurso à
análise efectiva de um período de publicação, que abrangeu tanto a edição
impressa como a versão online. São elementos de pesquisa as questões associadas
à passagem de um ambiente para outro, o facto de isso ter contribuído para a
perda de leitores, consolidando um impacto negativo que contribuiu para o
declínio do projecto. O período temporal do estudo inclui o rastro de opiniões,
críticas desesperadas, apaixonadas, poesia, prosa poética, as polémicas
ocorridas entre alguns colaboradores, ainda vigorava a versão em papel,
fotografias e ‘instalações’ em suporte gráfico, desenhos, ensaios, críticas
sobre cinema, teatro, e crítica literária. Até ao final, em Março de 2007, vinte
e três anos depois (desde Maio de 1983), com a intermitência que antecede os desaparecimentos, a
publicação continuou a preparar muita gente para outras experiências
profissionais e colaborações. É disso que se dá conta.
Ao escrever este ensaio, Helena Freitas também analisa a
imprensa escrita. Nesse sentido, a sua teoria acaba por demonstrar como bons
projectos podem terminar, pelo desinvestimento que se
faz neles, ou por circunstâncias e decisões tomadas que confirmam esse desinvestimento. O DN
Jovem, ao contrário de outros suplementos e revistas, durou mais tempo. Mas, se
se quiser saber a razão dos jornais terem menos leitores, das pessoas se
cansarem e desistirem de os comprar, este é o documento a que se deve recorrer com detida
atenção. Por cá, a publicação na imprensa sempre foi sujeita a vicissitudes
muito próprias. Na verdade, há uma pergunta que merece atenção: será que uma
revista, um suplemento que complementa o caderno principal de um jornal, tem
que, ao contrário do referido caderno, dar apenas lucro, ou completar a
existência do todo? Nesta equação, o DN Jovem é exemplo paradigmático – podia
ter, no máximo, oito páginas impressas a preto e branco, e essa impressão era
realizada uma vez por semana. O que torna o seu fim, e o sobressalto que o
antecedeu, como uma curiosa contingência que merecia análise ao pormenor.
O livro também faz um tributo a Manuel Dias, editor principal do
suplemento, condecorado pelo anterior Presidente da República, Jorge Sampaio,
com a Ordem do Mérito no grau de Comendador, num
reconhecimento do papel cultural da publicação. Também honra a Sandra
Augusto-França, e Sónia Duarte, que o editaram depois da saída do primeiro, e a
todos os que colaboraram naquele pedaço do jornal que muitos gostavam de ler à
terça-feira. Se possível, para mostrar aos amigos a página com o seu nome e texto
impressos. Isso representava uma vitória, produzia nos contemplados uma grande
euforia, até à semana seguinte, em que se tentava novamente. Esta é uma
marcação da persistência de quem assumiu a direcção, da vontade férrea de
ultrapassar as dificuldades que foram acompanhando a vida do suplemento, que
agora é revisitado, fixando o elevado estatuto que merece.
