A mercearia da Dona Juliana (em Carnaxide) é (era) uma das
muitas mercearias onde vale a pena rumar. Tomate, alfaces, couves, agriões,
morangos, melões, meloas, pão fresco e tudo aquilo que se pode conceber existir
numa mercearia de bairro, agora denominadas gourmet, existe ali, espalhado
pelas arcadas, protegido do Sol. Tudo do mercado da Ribeira, mais tarde, do
mercado abastecedor de Lisboa. É nas mercearias que se aprende a comprar, a
entender o segredo por detrás de um legume fresco, e de outro inconcebível,
apesar de parecer óptimo. Isso acaba por moldar a forma de apropriação. Passar por
ruas com fruta exposta dentro de caixas de madeira largas e espaçosas, fruta
colorida, fresca, fascina. Entra-se nas mercearias, o cheiro a pão fresco (Alentejano, de Mafra), a broa de milho e centeio,
misturado com o do fiambre acabado de cortar, com o dos diferentes queijos
dispostos numa vitrina, a par da zona de frios, com iogurtes que nem sempre se
encontram em outros lugares, leite do dia, natas frescas, passando pelos
corredores minúsculos onde tinham, e ainda têm, de caber muitas pessoas que
apreciam ali rumar diariamente, corredores onde estão dispostas as caixas de
batatas, cenouras, com inúmeros tamanhos diferentes, os alhos franceses, os
nabos, as laranjas, as pêras e os pêros, tudo faz parte de uma arquitectura
primordial que inferioriza claramente as idas aos supermercados e
hipermercados, onde tudo é amplo, de denominado bom gosto, e impraticavelmente
amorfo. Daí que a impressão que faz conceber uma viagem a esses sítios, seja em
muitas ocasiões compensada pelas incursões em mercados de rua e mercearias de
bairro. Aquelas que agora os grandes também querem recuperar.

