Quando o embaixador inglês em Portugal cessou funções, há alguns
meses, pediu aos portugueses para nunca se esquecerem de almoçar. Foi um hábito
que muito apreciou enquanto cá esteve, pouco habitual por essa Europa, onde a
febre com a performance contamina e destrói todas as competências individuais,
obrigando tudo a, mal ou bem, funcionar a preceito hora a hora, minuto a minuto. Sobretudo agora, que a corrupção veio
colocar no colo de quem nada tem que ver com isso, uma crise suspeita portanto,
é cada vez mais difícil o comum dos mortais almoçar todos os dias. Preços variados
ajudam, só que a relevância apenas se consegue quando os valores estão acima
dos vinte euros – há excepções, mas mesmo assim exigindo
dos clientes uma disponibilidade financeira acrescida, porque constante, perfazendo uma maquia mensal bem acima das suas possibilidades. Ora bem, como dizer
isto: é sensato pensar numa restauração que sobrevive a esta dicotomia. Mas será
possível? Inicialmente, com a chegada do euro, os preços subiram em flecha. A restauração
não foi excepção. Depois, baixaram, porque impunha-se a adaptação do lado
direito do menu à realidade cada vez mais concreta. Hoje, a tendência de transformação
do hábito de almoçar fora é cada vez mais uma realidade, e agora que os
restauradores procuram a sobrevivência, baixando os preços para continuarem a
ter o que fazer, confirma-se que a clientela se afastou em definitivo. Para onde?
Super e hipermercados, nos cafés exteriores e nas refeições quentes servidas dentro das lojas. Uma boa parte dos clientes e dos pequenos restaurantes de
bairro desapareceu por isto. Eram boas casas, mas o limite e a pressão a que
estiveram sujeitos com a subida do custo de vida dos clientes, aquela franja
que lhes permitia manter a porta aberta, desapareceu. Os menus baratos ainda
proliferam, mas é praticamente impossível comer decentemente. Raros são os
lugares onde um preço competitivo é adequado à qualidade exigível. Lisboa é um
dos lugares onde a desfaçatez é maior. Estamos assim a almoçar cada vez pior, ou obrigados ao uso da
marmita. Um hábito saudável, dirão alguns, que gostam de ser gourmets. A maior
parte das pessoas, contudo, desconhece o conceito, pouco tempo tem para isso. Demorar tempo a almoçar? Talvez volte a ser possível sim, no dia de são nunca à tarde.

