Há quem as odeie, só que a Couve de Bruxelas tem uma riqueza
mineral, vitamínica e de fibras de celulose muito apelativos. O sabor amargo e
doce, a intensidade do verde, são únicos, capazes de levar o mais incauto ao
tapete. Ao contrário da couve maior, a de Bruxelas é pequena, e constitui-se
como um rebento que cresce ao longo do tronco mãe (ou pai), o que pressupõe que
quem a ingere está preparado para ver os seus dentes atravessarem um diâmetro
de três centímetros de paladar vegetal, concentrado sobretudo nas imediações do
núcleo. Nem todos conseguem. Esta hortaliça foi sobretudo cultivada na Bélgica
a partir de 1750, daí o nome, e fica extremamente bem no acompanhamento de
carnes, com um molho de manteiga, limão e gema de ouve por cima, com uns
salpicos de pimenta, ou em sopas, nesse caso num âmbito de confecção mais
denso, para que a verdura se enquadre no prato pelo contraste. Os mais afoitos
concordarão que um repolho miniatura pode parecer absolutamente desinteressante
do ponto de vista do ‘design’, mas essa não é certamente a razão porque as
crianças ficam de pé atrás perante a possibilidade de repetirem ad nauseum o
movimento de inserção daqueles molhos de folhas miniatura na circulação
sanguínea – com o devido tratamento, claro. As folhas da couve de bruxelas,
apesar de pequenas, têm a mesma capacidade de retenção das couves grandes, o
que melhora a ingestão quando se lhes coloca um molho espesso por cima. Não
absorvem, e nem é preciso. E às crianças basta um vigoroso empreendimento culinário
na elaboração daquele vegetal, para se renderem às evidências. Com um fio de
azeite, se cozidas ao vapor, com bacon, se fritas na gordura da carne,
estufadas com castanhas, gratinadas, com molho de laranja, sempre como
acompanhamento, com um vinagrete de óleo balsâmico, azeite, pimenta, a par das
batatas ou das cenouras, é uma boa maneira de completar um prato com vaca ou
veado. Um dos motivos mais definitivos para que se ingiram, é o facto, de
aumentar a actividade dos sistemas naturais de defesa do corpo, e disso poder
proteger contra o cancro. Ou de conseguir combater a gordura extra, porque
mantém o fígado a funcionar a um nível mais elevado, limpando o corpo de
agentes que o podem intoxicar. Sobretudo as mulheres, muito podem agradecer às
Couves de Bruxelas a possibilidade de verem diminuído aquilo a que alguém já
chamou de estrogénio ambiental, que se encontra em locais tão distintos como o
creme de rosto (dia e noite) e pílulas anticoncepcionais. É verdade que os
homens não estão imunes. O uso consistente de adubos na plantação de vegetais,
pode conduzir o corpo de qualquer um a maior peso. Portanto, convém pensar em
retrocesso, quando a naturalidade impunha certas regras, aquilo que nesta era
moderna se nomeia como biológico. Os gregos comiam couves – embora de outro
género –, apesar de uma certa aristocracia ridicularizar esse consumo de
‘legumes humildes’. Os romanos também as comiam, por considerarem que, do ponto
de vista económico, a plantação desses e de outros legumes apenas constituí-a um
investimento em mão de obra, com um retorno quase garantido. Os pobres, ou os
avarentos, sempre comeram as couves rábano, a couve-crespa, os alhos-porros, o
repolho (outra espécie bastante consumida na Alta Idade Média). Há até uma
frase da época romana que versa um conceito de vida muito difundido,
relacionado com a agressão à liberdade cívica dos pobres. O que comiam eles?
“Pão, couves e sacrifícios.” Nada mais do que actualidade em diferido. A couve,
e a couve de Bruxelas, embora aparecendo mais tarde, e legumes como a cebola e
o aipo, eram (são) adicionados aos pratos para lhes aumentar a consistência,
verdade inalienável de quem quer ter uma alimentação rica, embora nem sempre
apreciada nos diferentes níveis da pirâmide social. Uma couve (uma série delas) a cada dia, nem sabe o bem que lhe fazia.

