No mundo dos vinhos a palavra vale muito. O cavalheirismo é uma forma de fazer negócio. Um aperto de mão tem o significado de um contrato assinado. Quem ali está, sabe que é para muito tempo. Por isso, esta ideia de permanência, de local onde se está com cuidado e esmero, conquistado pouco a pouco, diz tudo do significado da expressão ‘mundo dos vinhos’. É preciso 'alma', tempo, dedicação, para perceber o reportório do líquido que estagia nas pipas (ou nem por isso), a sua génese, de onde vem, como é tratado, e porquê, as razões da formação de uma adega, de uma marca, de uma ligação familiar que apenas costuma ser perdida quando expropriações, maus negócios e vontade de ficar quieto se impõem perante um legado que fica quase sempre como permanência cultural.
O começo é auspicioso, com o vinho de Bucelas, nos tempos
idos em que António João Paneiro Pinto, o primeiro produtor de colheita tardia
em Bucelas, da Quinta do Chão da Pedra, tinha entreposto em Lisboa, na Rua
Fernão Lopes, 15, perto do Saldanha, porque lhe pediam vinho e ele teve de
encontrar uma maneira do negócio avançar e de fazer a vontade às pessoas. Isto é
resumo. Depois, o inventário continua com nomes de reputada coroação: Abel
Pereira da Fonseca, nascido em Almeida em 1876, da Abel Pereira da Fonseca
& Companhia, criada em 1906, mencionado na famosa frase que relaciona os
seus estabelecimentos com Fernando Pessoa: «apanhado em flagrante delitro. José
Maria da Fonseca, nascido em zona próxima, Nelas, que rumou a Lisboa, estabeleceu-se no Cais do Sodré, e
depois fixou-se na margem Sul do rio Tejo, onde foi criado o famoso Periquita,
de uma casa que agora é explorada pela família Soares Franco.
A enunciação podia continuar. Aveleda, uma referência mundial,
do verde branco Casal Garcia e do Mateus Rosé, vinho do Porto da Taylor’s, Pêra-Manca,
de Colares, o Madeira, o Moscatel de Setúbal, o Douro da Quinta do Vale Meão,
imortalizada por Manoel de Oliveira, de Dona Antónia Adelaide Ferreira, a
Ferreirinha, entre tantas outras histórias são aqui combinadas de uma maneira muito
apelativa de se apresentar os meandros de um mundo cheio de vicissitudes, virtudes
e curiosidades. O tom é confessional, determinado a fazer com que quem percebe
pouco de estruturas vitícolas, dos meandros, possa compreender o panorama. A linguagem
é clara, sem excessos de adjectivação e literatices, proporcionada,
compreendida entre uma vontade enorme do autor de entender os pressupostos por
detrás da variedade de vinhos, e a evolução do negócio, seja a um nível mais familiar, seja por empresas que traçaram esse investimento como
estratégia comercial, seja por mera coincidência da vida que levou alguém muito
interessado a fazer-se a uma vida diferente. Segue, por isso, o tom tido no blogue. Essencial para quem admira a arte
de bem confeccionar o poderoso néctar.

