Tome-se para início de conversa, o Diálogo. Palavras,
consistência lexical, limpidez de discurso, riqueza material. Perante a
possibilidade de partilha, temos aqui um motivo válido, sete decilitros e meio
de 2008, criação Niepoort (Vinhos, Douro), com um rótulo desenhado à medida por Luís Afonso, cartoon de seu nome:
em paralelo com Lopes, o repórter pós-moderno, que coloca a fasquia do que o jornalismo deve
ser, acutilante se fundamentado, relevante se disposto à percepção,
bem-disposto, se humoristicamente irrepreensível. Alguns pontos acima do que, por vezes, tem sido. Aqui, Lopes, ou outros dois com nomes relegados à imaginação de cada um, juntam-se à volta de um copo, um para o servir, outro para o beber.
Reprimindo trejeitos, muita suavidade e ponderação neste
vinho, ténue no modo como se apropria do corpo, e agradável como o corpo se
apropria dele. Sem excessos, com delicadeza. Notas de alguma fruta vermelha na abertura de garrafa, alguma
acidez, uma espécie de cinza, de vulcão extinto ou prestes a ficar em brasa,
com alguma mineralidade decorrente (do pó) que a composição suave transforma em
limpeza de faro, isto com reminiscências de Porto doce, sem o doce propriamente
dito na sua totalidade. Coisas do Douro. Isto, no nariz.
Na boca, início curto, com a fruta madura a sobressair ainda
mais, um pico, e um final curto, de amargura (de amargo) controlada, vigor
concentrado, e uma cor rubi elevada a patamar de vermelho que quer ficar na retina,
com boa luminosidade, quase nenhuma opacidade, e umas aparas de espargos frescos e coentros acabados de
colher a tornar a experimentação singular. Primeiro frutos, segundo pimenta, terceiro, o final bastante identificável, que passa rápido.
É um vinho ténue, sem exageros, e de que se aprende a
gostar. À medida que a refeição avança, depois das primeiras provas efectuadas a seco, mantém-se,
sem complexidades, fiel ao estatuto, resultado da matéria que deriva do blend,
que requer conforto para se entender, e apreciar verdadeiramente os taninos
menos pronunciados, porque se trata de um vinho de todos os dias, elegante, preço razoável,
colocado o fruto no seu estado de maturação eleito, sem estágio (é o que
parece), ou melhor, com um estágio tão pouco demorado como a pronunciação de
boca.
O que sobressai é a técnica, o que fica é capacidade de, sem
ser complexo, manter uma identidade una, sempre igual a si próprio, sem que se
perca nada no entremeio. Contido, a aproveitar todos os espaços para se
manifestar. Como bónus, ao terceiro ou quarto gole de prova, temos um final em
que se percebem certas notas suaves de canela e de madeira de carvalho francês,
que se contrapõem ao doce e ao amargo iniciais, e que constroem uma espécie de
conversação, a tal, composta para transmitir uma tranquilidade bem pensante. É o
vinho da semana.

