Entre rios











À abertura, este vinho (Catapereiro Escolha, Companhia das Lezírias) faz recuar a memória para tempos de infância. Já se perceberá a razão. Uma rolha que, depois de retirada, faz ressoar uma fímbria vegetal e espargos acabados de colher, o doce do fruto maduro (quase esmagado), que ressalta, e o que vigora mais, a madeira. Passados cinco minutos, esta névoa desapareceu, enquanto o vinho se desenrola na garrafa.
Cor granada do líquido, um vermelho duro, com alguma película e espessura, essencialmente escuro, quase negro, que no nariz indicia um equilíbrio saudável, uma diversidade de odores e sabores, pela tenacidade do doce em confronto com as notas vegetais e a sobreposição do amadeirado, do estágio. Notas suaves de azeitona fecham a inspiração retro-nasal. Passemos, por isso, à fase seguinte.

Esclarecimento prévio: este é um vinho do Tejo, da sua lezíria, a intensidade que se consegue nas notas vegetais de um branco ou tinto do Dão, por exemplo, são bastante mais evidentes, e díspares – e é nessa diferença que reside o valor –, do que em vinhos do Tejo. É verdade que os portugueses escolhem mais vezes vinhos do Tejo, e fazem-nos por aquilo que querem receber deles.
Pureza, forte notação de rio (Tejo e Sado), aquosidade, taninos suaves, intensidade nos brancos, uma mineralidade quase pueril, que se distingue da maioria das regiões pelo forte teor cítrico. Isto é o Tejo no seu melhor. Este vinho tem isso. A película remanesce no copo, o início é suave, quase imperceptível na sua génese de princípio, ligeiramente aquoso, como deve, e depois de digerido na prova, permite distinguir o amontoado proveniente da mistura entre as castas Castelão, Aragonês e Cabernet Sauvignon, em proporções que definem um nível de álcool razoável, esmorecido na amálgama.

Ou seja, bem doce (que desaparece depressa, e volta), alguma pimenta e gesso, um fumo com sabor a lareira repleto de enchidos (alheira, chouriço, farinheira) que mantém a sua presença em toda a prova, por vezes acometido de fugazes experimentações de terra vulcânica e lã molhada (a par da aquosidade), com película de boa monta a incentivar à segunda prova, e à continuidade.
E depois o problema, porque como fica mais suave com o tempo de abertura prolongado, o que é normal, exige grande complexidade, que é relativa, e por isso destaca-se uma espécie de doçura que, à primeira vista, parece de amoras acabadas de espremer com os dedos, e que à segunda (neste caso terceira e quarta) averiguação, se entende como artificialidade que em nada combina com o anteriormente exposto. Se é de final apimentado, e amargo, é também doce e generoso?

O que vem demonstrar que o estágio em certa madeira pode fazer sobressair identidades a mais, e que o mel pretendido consegue-se de outra maneira. Se se quer o fruto em destaque, que se amenize um pouco a par do reforço do amargo, o doce é bom em termos de contenção e de equilíbrio. Adiante.

Cômputo geral: um vinho que sem ser excessivo, revela algum equilíbrio, bons indícios de fruta, por vezes excessivos, com potencial para alguma reformulação, adequado a carnes vermelhas muito intensas, a queijos amanteigados (a derreter), com a conotação pastosa e elementar do líquido, que penetra no palato com múltiplas sensações, até de pimento, pronunciando-se num final longo, que se confinado a uma sobremesa doce, como uma maça assada inundada de Moscatel de Setúbal e canela, liga-se bem porque doce, com doce, em teoria, e a prática comprovou, anula-se, ficando a forte tendência a madeira a reservar o Escolha para espraiar-se na tal tonalidade amanteigada. É o vinho da semana.

 

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