Nuno Cancela de Abreu é o enólogo por detrás deste vinho. Conhecido
no meio por recentrar a marca Bucelas, e por ter direcionado a Quinta da
Alorna, volta às origens, digamos assim, para fazer o mesmo com a propriedade
de família, projecto a que foi dado o nome Boas Quintas. Duas vinhas em
Mortágua, outra em Nelas, originam este Quinta das Giesta 2009, dum ano excelente,
e que aqui se revela plenamente.
Deve ser dos ares gélidos da Serra da Estrela, certamente que sim, e
da terra. Solo com pedregulhos, é mesmo assim, muito granito (e argila), e uma ‘contaminação’
boa de oliveira. Isto porque, à abertura de garrafa, só azeite se destaca como
elemento condutor. Um ‘fio’ nascente, com uma mineralidade crescente, uma rolha
impregnada, e ao fim de um minuto, as notas vegetais a palha manifestam-se, tal
como traços de fumado e brasas acesas, que entretanto desanuviam.
Depois, primeira inspiração, e os taninos equilibrados
começam a notar-se, com um aroma delicado a fruto e uma cor intensa, que se
transpõe nalguma acidez, sem excessos ou pronunciamentos mínimos, com muita
amora a liderar a impressão, num equilíbrio que poderá garantir uma apropriação relevante. A baixa acidez vai confirmar-se, a estrutura densa
revelar-se, com o sabor a ser liderado por um amargor em nota média.
Que se manifesta sobretudo no final. De início, os frutos
vermelhos sem a intensidade dada por uma Alicante, complementado pela acidez que
ressurge na boca, como no nariz, e que desaparece rapidamente. O ‘ataque’ à
boca é, por essa razão, essencialmente vegetal, com uma conotação límpida e
aquosa, de amora que se transforma em ginja. Touriga Nacional, Tinta Roriz e
Jaen, estão neste vinho em pleno, cada uma selecionada para destacar
características muito próprias, que o parâmetro da prova confirma em cada parcela. O violáceo da cor, granado escuro, a espessura e densidades de um patamar que impregna a boca, foi conhecido no copo, na película que escorre devagar. Pouco a pouco, as alterações denotam uma suavidade no trato, para o doce e a compota de frutos encarnados, mais intenso no princípio do que a meio da prova, um doce controlado numa fímbria rosada que contrasta com o amargor que também finaliza. Ou seja, tanto enquadrado correctamente com carnes brancas e vermelhas, com peixes ricos em gordura, como com sobremesas simples, como um bolo ‘tipo’ inglês, sem frutos, com uma calda de licor de laranja. É o vinho da semana.

