O projecto Lavradores de Feitoria, no mesmo âmbito do ‘Douro
Boys’ (2009), visa defender o património vitivinícola do Douro. Várias quintas
e produtores de uma mesma região, reunidos para um bem comum. O projecto
Lavradores junta 14 à mesma mesa, e o vinho resulta deste propósito
de conjugação. Seleccionar o melhor de cada produção, produzir um vinho cuja
fórmula permita a integração do trabalho realizado por cada qual.
As gamas disponíveis são muito distintas (e premiadas). A escolhida
para esta prova, é a Gadiva, um vinho de preço adequado, que coloca em sentido
vinhos mais caros, e que nem de perto nem de longe conseguem uma relação
preço/qualidade tão boa. Portanto, escolha sábia. Lavradores de Feitoria Gadiva
Tinto 2008. Uma rolha acoentrada, com muita resina e minério que desaparece
rapidamente, e notas de palha que respiram da garrafa, com alguma azeitona. Denuncia-se
uma complexidade óptima (embora sem exageros), que se confirma no arranque.
Suave, alguma frescura, com uma cor granada, de vermelho rubi, com núcleo escuro, e muitos aromas libertos durante a primeira aferição. De início, portanto, no nariz muito petróleo e solo vulcânico, o que se depreende como uma derivação sustentada, está-se a referir o Douro, com o seu rio a realizar a contaminação boa do líquido, e aqueles solos xistosos (entre outros tipos de rocha), a fazerem o resto. Primeira prova, a palha sobressai, juntamente com notas de mel e manteiga, ou seja, destaca-se um aveludado agradável, com um balanço encurtado depois por um final mais longo.
O sabor doce do mel, da fruta, que deriva do estágio residual em madeira, é intenso, e notado com maior intensidade a partir da segunda prova, da terceira, onde se apresenta mais maduro, e com uma notação de pimenta bem pronunciada. À quarta prova, esta conotação digere-se com o complemento da fruta fresca, que volta, e é bem-vinda. Em termos gerais, temos boa intensidade e bouquet com uma complexidade regular, e uma afinação ajustada, com boa concentração do bago, acidez baixa, o domínio da fruta, com equivalência aromática relativamente às notas mais calcárias, graníticas e xistosas.
Apesar dos 13,5% de álcool, nem sequer se apresenta
qualquer vestígio que possa ser destacado, o que revela bom trabalho no
desengace e na fermentação, concluindo com umas referências superficiais a
couro e baunilha. Portanto, temos uma escolha que alegrará a mesa dos mais
afoitos, que apreciam vinhos com acidez moderada, que quiserem tomar tempo para
conceber umas alheiras DOP de Mirandela, acompanhadas com as batatas cozidas e
fritas na sua gordura, e grelos, com queijo da Serra para finalizar em beleza. E
nem de propósito, a boa capacidade de envelhecimento deste tinto desperta
curiosidade suficiente, de como poderá estar daqui a dois anos. É o vinho da
semana.

