Vinhos há que convidam à meditação. É o caso. Quando a base
é a partilha generosa da adega de um amigo, então temos criado o ambiente
adequado de degustação e apreço. Que se revela numa escolha da Estremadura (actual Tejo), uma
opção dispendiosa (cerca de €49), da Quinta do Monte D’Oiro, de José Bento dos Santos.
Com 14% de álcool, e um blend que diz de si próprio muito de quem opera na
vinha como na gastronomia. Ou seja, Touriga Nacional, complementada com Syrah,
Touriga Franca e Petit Verdot, de um ano bom, 2001, quase tão bom quanto 1999, o ano
máximo das últimas duas décadas. Aurius assim, e ainda bem.
Aberto uma hora antes da prova, em condições ideiais de
temperatura, sem decantação, com uma rolha completamente impregnada, bem cheia,
adornada com aromas fortes de fruta e enchidos, também alguma madeira, é certo
que em menor concentração, muito ‘activo’ e a denunciar uma grande complexidade,
que após dez minutos do levantamento da rolha ainda aromatizava a sala. Denúncia
de elevada pujança a toda a prova.
Que se concretizou. De boa partilha, como se verifica, um
vinho de reflexão plena, de tempero da conversa e aceitação, com a sua elevada
conotação a receber e a dar, já tranquilo, a azeitona numa concentração
impressionante, no seu carácter vegetal, com aromas fortes de elaboração, de tempo e pasto direccionados no valor da terra, amoras que se pisaram e que deixaram o mosto numa
grande (e boa) deriva mediterrânica, que as uvas aqui são metáfora singela do
poder de uma adequação concentrada.
E assim se chega à parte importante de compreender um vinho
aveludado no trato (na língua), suave na medula, sem nada de madeira, ou com uns
traços muito ténues, uma concentração de álcool no início longo, demorado
mesmo, que no final mais curto já estava ausente, a par de um vermelho
carmesim, com uma camada de escuridão lateral que lhe conferem uma leitura de cor
mais baça, em todo o caso, atraente, capaz de captar a atenção porque a coloração é distinta.
Sem a adstringência de um vinho novo, o bouquet desta criação
tem tudo para manter a sua intensidade, e esta é, provavelmente, uma das
melhores alturas para o beber. Ligeiramente apimentado, mantendo um vigor
sobranceiro de quem sabe que ali está para ser bebido com tempo, ‘puxadote’, o
que quer dizer que se entranha na circulação aos poucos, delicadamente, com uma
coerência e alento permanentes.
O intrincamento superior, adquirido no longo estágio em
garrafa, que manteve o líquido num nível de alcance que requer atenção e muita concentração, dá-se ares de muito enxofre, há a
confirmação dos enchidos, do aroma do azeite pressentido nos meandros vegetais
da sua configuração, a fruta mais do que madura, no sentido bom da maturação,
encorpado até mais não, e estas são notas que fazem desta escolha uma excelente opção
para ocasiões especais.
Obviamente, o teor gastronómico do blend multivarietal
é absolutamente imperdível, com castas que nem sempre se encontram na
Estremadura, e que aqui adquirem uma leitura tão relevante quanto a que
conseguem nas ditas zonas de origem (como a Syrah, a Touriga Franca ou a Petit Verdot).
Com uma entrada de queijos (fresco e de cabra) e salada temperada
com azeite virgem – o chamado ‘starter’; uma perna de perú, acompanhada de
cenouras doces, batatas e grelos salteados, tudo de horta biológica, prato
principal (‘main course’) então tem-se equação que deslinda um paralelismo
quase excêntrico, numa base tradicional de grande finura. Como é um vinho
guloso, com corpo e densidades concebíveis, acolhe combinações extremas com
sobremesas (‘dessert’) doces, como um bolo com creme de avelã no interior, coberto
com o dito chantilly e com pedaços de ananás, ao jeito dos bolos de casamento,
só que em bom. Digamos que tal complexidade esteve ao nível do menu. É o vinho
da semana.

