Uma colheita é uma colheita e pronto. Quando as uvas passam
pelo desengace, e o mosto ‘dorme’, e a fermentação tem início, pouco há a
fazer. Ou muito. Por vezes, fazer muito é fazer pouco, é deixar o vinho tomar o
seu caminho. Realizar o seu percurso. Ficar quieto. No caso desta semana, Félix
Rocha Colheita 2009 (Quinta da Ribeira, Sociedade Agrícola Félix Rocha, Vinho Regional de Lisboa, Alenquer), parece que se fez mais alguma
coisa. Vamos ver se boa, neste vinho premiado com Prata no Concurso Nacional de Vinhos de 2011.
Comecemos pela constituição. Aragonez (95%), uma casta bem
generosa, e Merlot (5%), a mais cultivada em França, também considerada por
alguns como a ‘outra’ casta tinta dos vinhos Bordeaux. A esta conotação ‘estrangeira’,
temos uma marcação solene dada pelo facto de estarmos perante um vinho da
região de Lisboa (Tejo), com todas as suas especificidades.
Uma rolha cheia, de uma intensidade vegetal bem delineada,
com uma formação idêntica de madeira, aspira-se e invade os poros. As notas de
fruta madura surgem depois, como que cercando as notas anteriores. Depois de
vertido e abanado decentemente, espessura mais que muita, um vinho muito
aromático, a perceber-se uma acidez reduzida, uma cor encarnada pastel,
encorpado, com mais qualquer coisa.
Que a prova deixa nas papilas gustativas. A pimenta, nos
primeiros momentos, o início curto, um final longo, oleoso, denunciando uma
textura macia, um veludo com fruta preta (ameixa, groselha), o vegetal que
confirma (em alecrim e azeitona bem temperada), com os aromas doces a
tornarem-se preponderantes.
É que os taninos redondos, a intensidade vegetal e alguma
aspereza do couro são, na primeira prova, absolutamente opacos por um carácter
tão frutado, doce, mas um doce que impregna a boca como uma sobremesa. Digamos
que é demasiada fruta para ser verdade, o que lhe confere um nível exagerado, quase
forçado, de doce. Enjoativo. Embora o nariz e a segunda prova indiquem outra
direcção, e a acidez, de facto, se confirme ausente.
Claro que as notas mais caramelizadas, da baunilha (madeira)
e do coco, predominam, só que a fruta mencionada parece indefinida apenas no
açúcar. À segunda prova esses factores diminuem em presença, e o teor vegetal ganha
maior fulgor. Contudo, o doce deixa de ser ‘seda’, para se manifestar de forma
paralela numa amálgama estranha, e neste instante a possibilidade de se tornar
numa proposta muito relevante, esbate-se. É uma paridade que resulta numa
ruptura. Muito Novo Mundo. Talvez excessivo, embora haja quem aprecie muitíssimo, e a vertente 'bom com sobremesas' seja realmente relevante porque até consegue anular o doce. É o vinho da semana.

