Do Dão ao Douro num instante



















Hoje, dois vinhos do Dão, um do Douro. Dois brancos, um tinto. Vamos aqui subir os degraus, porque a coisa promete. Os preços não ultrapassam os cinco euros, por garrafa, até menos. Comecemos pelo Dão, duas escolhas Dão Sul (Global Wines), que configuram um carácter jovial, bem entendido no Verão. Os brancos de 2011, acabados de sair para o mercado, o tinto de 2004.
Os brancos, ambos frescos, com muita fruta, florais, o Cabriz Colheita Seleccionada, mais pálido, de uma transparência marcante e boa. É Verão, está calor, a cor adequa-se. O Casa de Santar, com uma cor mais amarelada, de Cerceal Branco e Encruzado, a ir buscar as castas da região, é intenso o suficiente, e apresenta-se com um início curto, agradável, com uma intensidade cheia de ‘ritmos’ suaves da fruta, limão, e algum gás.

O Cabriz é mais intenso, a que se deve a conjugação das castas anteriores, com a Bical e Malvasia fina. É também mais complexo, com a fruta (citrinos) e o carácter vegetal adocicado mais revelador. O Casa de Santar tem a sua verve na intensidade do xisto, da pedra. Um amargor bem definido, e uma complexidade menor, mas com idêntico valor. O Cabriz com aroma e paladar no paralelismo do jasmim com o teor crítrico.

Ou seja, duas escolhas que ‘respiram’ Dão, no ataque à boca, na cor, no nariz que repercute a paisagem acidentada, com teores de boa monta, e diferentes, para que diferentes pessoas possam acercar-se daquele produto. Digamos que, embora apreciando a consistência de um vinho amargo, como o Casa de Santar, o Cabriz é cativo duma complexidade e amplitude que o transformam numa solução preferível. As garrafas vazias comprovam o resto. Acompanharam douradas grelhadas no carvão, com salada de pimentos, batatas cozidas e finco de azeite.

Quanto ao tinto, subimos um pouco, literalmente, tal como em termos de qualidade, andando para o lado (dtº) no mapa de Portugal, até ao Douro, para a atenção no Solar do Prado Allegro 2004, vinho do Vale da Espinhosa, numa opção que, pela qualidade, preço e características, deverá suscitar romarias aos supermercados e garrafeiras mais próximas. O terroir, o terroir, é isso.
Constituído por quatro castas, qualquer delas a confirmação num conjunto elementar, mais do que competente: touriga nacional, touriga franca, tinta barroca e tinta roriz. A adicionar ao grupo, um estágio de nove meses em cascos novos de madeira de carvalho francês.

A rolha vegetal, logo de início com odor a azeitona em intensidade bruta, também alguma palha e madeira. Denuncia bons taninos. À segunda inspiração, menos concentrado e mais floral, com o fruto a querer sobressair.
Vertido no copo, depois de hora e meia de ‘respiração’, revela uma complexidade material bem pronunciada no nariz, com as amoras em primeiro plano, e num segundo, a pimenta, em que parece abalançar-se a restante prova.

Aliás, vai-se alternando. Mais doce no início, a meio começa a abrir, com a pimenta, os fortes taninos, que atenuam, consolidado num vigor permanente, numa consistência generosa, com as ervas aromáticas, o equilíbrio do doce com a textura da película, em manteiga, com o vegetal, a azeitona, a alternar com a fruta. As mudanças que sofre só destacam a harmonia que o demarca.

Vinho que denota persistência do repouso, apesar da densidade e visco. O que neste caso é predominante, porque o balanço dos taninos, relevante e profundo, espalha-se por toda a prova, por todo o período de degustação. É de 2004, evoluiu muito bem, e ainda poderia evoluir mais. É uma excelente escolha para estes dias de Verão com noites frias. Acompanhou uns bifes de frango fritos na frigideira,  selados na sua gordura, com manteiga, finalizados em forno médio, com molho de caril e arroz branco de guarnição. São os vinhos da semana.

Adenda: e este tinto de 2004, dois dias depois de aberto, mantém o seu carácter.

 

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