Um cálice em copo largo



















Três garrafas de pureza mental. Vinho do Porto é assim. Três Vinhos do Porto distintos, de grande envergadura, e que requerem atenção, tempo para degustação.

Comecemos então pelo Sotto Voce Reserva Ruby Burmester, que diz ser de uma ‘colecção’ dedicada às mulheres especiais (e uma em particular). É natural que o seja. Cor carregada, madeira em perfeito equilíbrio, muita fruta, que se percebe logo de início, com um rasto de notar e um sabor tão frutado quando o cheiro. Contudo, ao contrário da maior parte dos vinhos do Porto, nada aqui está em excesso. É tudo pesado, com tempo, a maturação perfeita, o momento adequado, deve beber-se já, e confirma as potencialidades do rótulo. Resumindo, início longo e terno, na boca um assinalável gosto a amoras, com um amargor e doce em equilíbrio notável. Agradece o pudim que o acompanhou, realce estupendo para a combinação. Bebido em cálice ou copo alto. É companhia certa para sobremesas complexas que exigem parelha sofisticada.

O Twany é diferente (marca Continente). Mais rude, a precisar de mais espaço, um balão ou copo alto largo. No cálice, parece perder-se. Começa a evoluir com demasiados constrangimentos. O ar transforma-o em líquido com muita madeira. Muita mesmo, sobressai com uma intensidade importante. Ainda mais carregado que o Sotto Voce, tem um teor menos largo, revela menor combinação de fruta, com aromas mais intensos de morango e figo. Muito mais doce, tão doce e pesado de início, à abertura, que assusta. Aos poucos, o doce é tornado menos evidente, forçando um maior equilíbrio. A base, no sabor a típico a ‘Porto’, é peremptória. De certeza que os indefetíveis gostarão desta proposta, que ao contrário da anterior, mais ponderada e elegante, denota um conforto necessário, que é essencial embora revele menos cuidados – provavelmente no engarrafamento. Acaba tranquilo, bebível neste momento em cálice. Acompanhou finais de refeições e algumas sobremesas simples – como bolo de iogurte.  

Por último, um Ruby da Sogevinhos, Burmester como o primeiro referido. Simples. Nada de reservas. Um meio termo, que consegue combinar algumas características do primeiro e do segundo. Início mais doce, como a segunda proposta, com uma fímbria da primeira, a fruta, novamente as amoras bem marcadas e alguns outros frutos vermelhos, com uma elegância intermédia, e com traços de madeira, que se vão esvaindo, literalmente, na amplitude final. Bem apreciável em copo curto e fechado – cálice –, só que pede o copo largo. A intensidade fica mais marcada, abre mais depressa. Confere o resultado que ajusta o equilíbrio de uma proposta muito corrente, sem ser aquele vinho do Porto exactamente idêntico a outros. A ‘casa’ Burmester define aqui uma ideia de vinho que abranja outros mercados e escolhas. Ao fim de alguns tragos, o fim é menos doce, mais apimentado. Configura postura transversal e diversa. Como o segundo, acompanhou diversas sobremesas diversas e finais de refeições.

Ganhava o primeiro, se isto fosse um comparativo. Não é, sobretudo no preço. A primeira proposta compra-se no supermercado dos descontos de 50%, e isso foi uma vantagem. Custaram todos o mesmo: €5,00. O primeiro custa agora €9,99. Compreende-se.  O Vinho do Porto ainda é barato em Portugal, é um facto. Ainda bem. Porque se se for aos EUA, e a outros países que o importam, é caro. Muito caro. Felizmente aqui, ainda conseguimos absorver-nos em propostas como estas três, que sendo acessíveis, revelam um património que se pode degustar. Mais caro, tornar-se-ia um produto fora do contexto da realidade que se vive. Dificilmente se requer isso de um produto tão especificamente rentável, a não ser que se pense daquela maneira, de que o que é mais caro é certamente melhor e pretendido – um argumento comprovadamente falacioso.

 

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